Setembro de 2008. A economia global estava na maior crise financeira de todos os tempos. Como se isso não fosse o suficiente, a situação piorou e se transformou em pânico geral com a quebra do Banco Lehman Brothers.

Não era um banco qualquer, esse banco era um símbolo. Ninguém jamais imaginou que isso aconteceria, mas o fato estava lá, escancarado perante rostos incrédulos.

Antes disso, a população americana se encontrava embriagada. Era a farra do crédito barato, estimulado principalmente pelas baixíssimas taxas de juros praticadas pelo governo norte-americano. Era o american dream revival, o sonho da casa própria.

Mas esse sonho se tornou distorcido quando os americanos utilizavam as hipotecas dos imóveis recém financiados para comprar mais imóveis. Era uma forma de se alavancar para especular no mercado imboliário. Obviamente não ia dar certo.

Satoshi Nakamoto, criador do Bitcoin, já havia exposto sua insatisfação no primeiro bloco da rede da primeira moeda digital. O protesto era uma citação de uma manchete do jornal Britâncio The Times: “Chanceler está a beira de um novo resgate aos bancos”.

Esse protesto vai além do fato concreto do resgate aos bancos, protagonizado por governos com seus bancos centrais. Creio que essa insatisfação de Satoshi vá além disso.

Esse protesto silencioso pretende atingir o momento em que o nosso dinheiro se tornou distorcido, mais especificamente lá em 1971, quando o presidente americano Richard Nixon acaba com qualquer vínculo do dinheiro com algum bem tangível.

Antigamente, nosso dinheiro era lastreado no ouro. Não por acaso, o Ouro era o ativo que tinha as melhores características para servir como dinheiro: escasso, imutável, à prova de falsificação e durável. Ele serviu como lastro do nosso dinheiro até o ano de 1971, no conhecido padrão-ouro.

Tudo bem que o padrão-ouro já não andava muito bem desde a Primeira Guerra Mundial, mas ainda assim ele era melhor do que o que temos hoje, o dinheiro fiduciário. Nixon transformou efetivamente o nosso dinheiro em dívida.

Foi o maior negócio de todos os tempos: ele abolia o resgate do ouro através de dólares e garantia o valor dos dólares na promessa que o governo iria saldar aquela dívida futuramente. Ou seja, nosso dinheiro passou de riqueza para dívida.

A partir daí, pudemos presenciar as aberrações que vemos até hoje em nossa economia: hiperinflação, juros negativos e endividamento público crescente.

O governo pode imprimir o quanto de dinheiro quiser, seja através da emissão de dívidas públicas, redução da obrigatoriedade que os bancos precisam ter em reserva e através da impressão de papel por si só.

O protesto de Satoshi é contra a distorção do nosso dinheiro. O Bitcoin é a materialização (ou digitalização) da insatisfação de Satoshi. Ele criou um ativo digital que contém todas as propriedades do ouro – que discutimos acima – além de adicionar a mais importante: à prova de censura e semi-anônimo.

O governo não pode saber que você tem Bitcoins a menos que você conte a ele. O governo não pode confiscar seus Bitcoins a menos que você entregue a posse da “senha” que dá acesso às suas moedas. Essa foi a genialidade de Satoshi, em uma solução simples e inovadora.

Se o dinheiro do governo não tem limite de emissão, o contrário se pode dizer do Bitcoin. 21 milhões. Para sempre. Esse é o limite máximo de Bitcoins existentes, o que assegura a sua escassez legítima com redução de emissão pela metade a cada 4 anos.

Quem não confia no governo pode trocar moeda governamental por Bitcoins. A moeda é uma das formas mais eficientes de manifestação e manutenção de poder. Se a moeda do governo perde força, ele perde sua soberania. Com isso, surge a soberania individual, proporcionada por Satoshi Nakamoto com o Bitcoin.

Em 10 anos, 1 Bitcoin foi capaz de valer mais de US$ 10 mil, receber cobertura jornalística diária na CNBC, movimentar bilhões de dólares ao redor do mundo e atrair investidores profissionais. Mais que isso, ele foi capaz de assegurar que as pessoas tenham uma reserva monetária confiável para combater o ímpeto inflacionário dos governos.

Esse foi o protesto de Satoshi Nakamoto: o Bitcoin. O maior protesto silencioso de todos os tempos.