É impressionante ver como a discussão a respeito de Blockchain e Bitcoin ganhou notoriedade mundialmente. Surgindo a partir de fóruns pouco frequentados na internet, a criação de Satoshi Nakamoto vem ganhando cada vez mais relevância entre empreendedores, geeks, investidores e centros acadêmicos.

O boom das criptomoedas têm impactos muito positivos, como levantar questionamentos sobre ética, liberdade, corrupção, descentralização e economia. Por outro lado, há dores de crescimento, assim como qualquer mercado que cresce exponencialmente em um curto período de tempo.

Uma das dores de crescimento que o ecossistema de criptoativos vem sentindo é a má interpretação a respeito do protocolo de Satoshi Nakamoto. Principalmente essa divisão que foi feita entre Blockchain e Bitcoin, onde novos “estudiosos” (chegaram de paraquedas no mercado) querem dizer o que presta e o que não presta.

Blockchain sim, Bitcoin não – “Estudiosos” brasileiros

A nova moda no ecossistema de criptoativos é a seguinte frase – “Blockchain tem um potencial muito grande, mas acho que o Bitcoin é uma bolha”, ou algo do tipo. A ideia é sempre com o intuito de vangloriar o Blockchain, a grande tecnologia, e menosprezar o Bitcoin, a bolha.

Esse tipo de pensamento não poderia estar mais errado. Neste texto vamos falar um pouco sobre isso, baseando-se sempre em grandes especialistas do assunto, que possuam relevância e bagagem (isso é muito importante, já que todo dia surgem novos “especialistas” nesse mercado – efeito Dunning Krueger já explicava bem).

De onde surgem os termos Blockchain e Bitcoin?

Blockchain é uma das ferramentas usadas por Satoshi Nakamoto para permitir o funcionamento do Bitcoin de maneira descentralizada. Satoshi se baseou em pesquisas da área de criptografia e ciência da computação para tornar possível a aplicação ao seu projeto. O conceito de árvores de Merkle e timestamping de dados são algumas das referências utilizadas pelo criador do Bitcoin.

O protocolo criado por Satoshi Nakamoto é um só – Bitcoin: Um sistema de dinheiro eletrônico ponto-a-ponto. Em seu artigo, a palavra “Blockchain” não é citada nenhuma vez, afinal não existia divisão de nomes para o sistema, já que tudo junto forma o todo: Bitcoin. O nome foi dado devido ao funcionamento da tecnologia – os blocos de transações são interligados entre si, através de um hash – devido a essa corrente de blocos surge o termo “Blockchain”.

Para que serve a invenção de Satoshi Nakamoto?

A motivação de Satoshi, ao criar o Bitcoin, foi o fato de que nosso sistema de pagamentos atual está 100% baseado na confiança em terceiros. Incluir um intermediário em qualquer mercado é sinônimo de custos, falhas de segurança e corrupção. Custos porque ninguém trabalha de graça; Falhas de segurança porque uma estrutura centralizada é um alvo fácil de hackers; Corrupção porque o excesso de poder incentiva os agentes a jogarem a favor de seus interesses pessoais.

A solução dada por Nakamoto para resolver esses problemas foi o seguinte –  descentralização. Se ao invés de precisarmos dos governos e bancos, que já traíram nossa confiança diversas vezes, substituirmos o serviço que eles prestam, resolvemos um problema bilionário. E foi assim que tudo começou.

Ao invés de termos um Banco Central que definirá a emissão de moeda na economia, o código do Bitcoin pré-determina como será o comportamento de sua base monetária e sua inflação. Os mineradores farão a extração destes Bitcoins, sempre através da resolução da prova matemática (precisam achar o nonce necessário para resultar em um hash específico dado pela rede), sempre em um cenário de competição, permitindo que qualquer pessoa com acesso a internet consiga minerar blocos.

Resolvemos um outro grande problema presente em nossas moedas fiduciárias – a Inflação. O Bitcoin tem sua emissão controlada e por isso sabemos exatamente de quanto será a inflação em cada ano. Nem mais, nem menos do que está previsto. Será igual. O código é quem rege o sistema, e só poderá ser mudado com a maioria da rede concordando.

gráfico curva de inflação do bitcoin
Gráfico representando a expansão da base monetária do Bitcoin ao longo do tempo e sua curva de inflação.

Bancos são substituídos porque os mineradores validam as transações da rede. Um minerador é recompensado (não é ganhar, pois ele está trabalhando e gastando recursos para isto) com Bitcoins ao ser o primeiro a completar e validar um novo bloco de transações. Ele recebe uma quantia fixa de Bitcoins (que é reduzida pela metade a cada 210.000 novos blocos gerados – Halving) mais uma quantia correspondente às taxas de transações que foram pagas pelos usuários para transferir seus BTC’s.

https://cointimes.com.br/halving-o-que-muda-para-investidores-e-mineradores/

É desse modo que os Bitcoins surgem. Cada fração dessa é fruto de trabalho e recompensa ao esforço de algum minerador que gastou tempo e dinheiro para aquilo. Completamente diferente do dinheiro que temos em nossa carteira, que se multiplica pela simples vontade de um burocrata, que resolve começar a imprimir dinheiro porque acha necessário.

Bancos e Governos estão apaixonados pelo Blockchain

Ótimo, se não fosse por um detalhe – eles não sabem para que serve o Blockchain. Como assim? Calma que eu explico.

Eles deixam claro que não entendem os diferenciais do Blockchain quando atacam o Bitcoin. Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central do Brasil, soltou em dezembro de 2017 que Bitcoin era “bolha e pirâmide”, mas alguns meses depois falou que acredita no potencial da tecnologia Blockchain para melhorar a atuação dos Bancos Centrais.

Isso não faz o menor sentido. Eles pensam que o Blockchain é um livro mágico de poderes, mas não se atentam que o real diferencial é a descentralização. Para você descentralizar algo, você precisar oferecer um incentivo para que os usuários cooperem com a rede, e é aí que entra o Bitcoin.

Um dos desenvolvedores do Bitcoin, Jimmy Song, falando um pouco a respeito desta errônea interpretação acerca do Blockchain.

Não adianta criar grupo de estudos de Blockchain, como vários bancos vêm fazendo, e depois emitir uma nota contra o Bitcoin, como foi o caso do Itaú no evento da CIAB de 2018. Para quem não sabe, CIAB é o evento da FEBRABAN, a Federação Brasileira de Bancos. Como se já não fosse engraçado bancos discutindo sobre Blockchain, algo que surgiu com motivos claros de acabar com este tipo de serviço, eles resolveram abordar o tema ignorando completamente o Bitcoin, como se fossem coisas distintas.

Não é possível separar as rodas do carro, colocá-las em carruagens e afirmar que são iguais a carros. Nós não queremos cavalos com rodas, nós queremos o carro como um todo. Blockchain sem Bitcoin não faz sentido. Se não houver descentralização, o Blockchain é tão eficiente quanto qualquer outro banco de dados e apresentará os mesmos problemas de segurança, incentivos perversos e todos os demais que Satoshi Nakamoto quis resolver.

Fica claro que ao invés de abraçar a inovação, os bancos estão mais interessados em manter o oligopólio e prejudicar o desenvolvimento de qualquer ecossistema que os ameace. Para não parecer só uma resposta de um entusiasta de criptoativos aos bancos, coloco materiais de dois grandes especialistas do assunto neste post: Jimmy Song e Andreas Antonopoulos.

É louvável a intenção de estudar sobre a criação de Satoshi Nakamoto. Precisamos continuar neste caminho, mas tomar cuidado para não desvirtuar os reais significados de cada conceito, e alertar sempre que alguém fizer um julgamento equivocado acerca do Blockchain ou Bitcoin, seja por falta de conhecimento ou interesses perversos, que é o caso de bancos e alguns governos ao redor do mundo.

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