Michael Saylor, presidente da maior empresa pública de tesouraria de Bitcoin, a Strategy (anteriormente MicroStrategy), está embarcando em uma de suas empreitadas financeiras mais ousadas: a introdução de ações preferenciais perpétuas como um novo mecanismo de financiamento. Este novo método busca se afastar de abordagens tradicionais, como vendas de ações ordinárias e títulos conversíveis, que já ajudaram a Strategy a acumular US$ 75 bilhões em ativos de Bitcoin.
O modelo de crédito de Bitcoin de Saylor envolve ações preferenciais perpétuas, chamadas “Stretch”, que oferecem uma estrutura financeira única. Esses títulos não têm vencimento e podem adiar pagamentos de dividendos, proporcionando flexibilidade ao emissor, mas potencialmente preocupando os investidores. As ações Stretch apresentam dividendos de taxa variável e não possuem direitos de voto, posicionando-se como nem dívida convencional nem capital típico. Saylor acredita que isso pode fornecer à empresa o capital necessário para continuar adquirindo Bitcoin. Segundo a Bloomberg, nos próximos quatro anos, ele planeja quitar bilhões em notas conversíveis, reduzir as vendas de ações ordinárias e depender mais das ofertas preferenciais como principal fonte de financiamento. Este plano ambicioso visa estabelecer um “Modelo de Crédito BTC”, onde o Bitcoin sustenta uma nova fonte de renda. Saylor vislumbra a possibilidade de levantar “US$ 100 bilhões… até US$ 200 bilhões” se a demanda por esses títulos for forte.
Até agora, este ano, a Strategy levantou aproximadamente US$ 6 bilhões por meio de quatro ofertas de ações preferenciais perpétuas, com a última tranche de US$ 2,5 bilhões sendo uma das maiores captações de capital no espaço cripto este ano. Como observou Michael Youngworth, do Bank of America, essa abordagem voltada para o varejo é única no mercado corporativo de preferenciais, que geralmente é dominado por instituições de grau de investimento. No entanto, há preocupações sobre a sustentabilidade desse modelo. As preferenciais perpétuas exigem pagamentos de dividendos contínuos e substanciais, o que pode ser um desafio, dado que o Bitcoin em si não gera renda.
A estratégia de Saylor para as preferenciais perpétuas também é uma resposta estratégica às limitações do mercado de conversíveis, que tende a excluir investidores de varejo. O CEO da Strategy, Phong Le, enquadrou essa mudança como uma forma de criar uma estrutura de capital mais resiliente, especialmente à luz dos desafios enfrentados durante o “inverno cripto” de 2022. Apesar das vantagens potenciais, os altos rendimentos associados às preferenciais perpétuas — frequentemente entre 8% e 10% — podem se tornar onerosos, especialmente em uma recessão de mercado, segundo especialistas. Críticos como o vendedor a descoberto Jim Chanos rotularam esses instrumentos como “loucos” para instituições comprarem, dada sua natureza não cumulativa e a discricionariedade do emissor sobre os pagamentos de dividendos.
No momento da escrita, o Bitcoin é negociado a US$ 117.260, recuando mais de 5% do recorde histórico de US$ 124.400 alcançado no início da semana. No acumulado do ano, a principal criptomoeda do mercado subiu 101%.