pica pau

Você é livre para ser um idiota, mas não recomendo

Se comparado com a versão original de 1940, a versão mais recente do Pica-Pau (Woody Woodpecker) soa hoje quase que como um pedido de desculpas pelas atrocidades que ele fez no passado.

Naquela época o mundo estava em guerra e os EUA começou a criar ícones para estimular o alistamento no exército. Um exemplo foi o Capitão América.

Menos na linha dos heróis e mais na linha dos satírica dos anti-heróis, surge Pica-Pau. Se notou bem, ele carrega as cores da bandeira norte americana o que evidencia-o como símbolo patriótico, mas além disso, ele é uma das maiores expressões de xenofobia e racismo já criadas pelos americanos.

Eu te explico

Como disse, o mundo estava em guerra e dois grandes inimigos dos EUA eram os Alemães e os Japoneses, mas internamente também havia conflitos contra os índios e mexicanos. Os filmes de faroeste também vem dessa época.

Era “comum” o ataque descaradamente preconceituoso a qualquer um que não parecesse ter a fisionomia de um americano. Herança essa herdada pelos Britânicos que achavam que brancos europeus tinham o privilégio de dominar os demais países.

Em Pica-Pau por exemplo, as primeiras aparências da morsa Leôncio (Wally Walrus) remetiam a um Mexicano, tanto em sotaque quanto em vestimenta. Há episódios em que ele assume a identidade de um xerife que obviamente será “zoado”, ainda que como força policial.

Zeca Urubu por sua vez é o malandro que não trabalha e tenta a todo custo enganar o Pica-Pau mas sempre perde. Isso é uma forma de mostrar na época como eram vistos os latinos e, se assistir aos episódios do começo da década de 50 verá isso nos áudios originais. (Ele também foi o indio torturado diversas vezes).

Voltando ao nosso personagem, Um dos episódios mais polêmicos de Pica-Pau é “O barbeiro de Sevilha”, onde:

  • Um índio nativo americano chega para cortar o cabelo, é recebido pelo Pica-Pau e obviamente é torturado;
  • Seu próximo cliente é um operário de aparência Italiana que também fora “zoado”. Lembra o que eu disse lá no começo sobre imigração de europeus fugindo da guerra? Eis a forma como muitos eram tratados ao chegarem nos EUA.

Curiosidade: Hoje, o estado mais populoso e rico dos EUA, a Califórnia também detém um dos maiores PIBs do mundo (2,448 trilhões USD). Esse era território do México antes da invasão e tomada pelos americanos.

A palavra Gringo que usamos para definir generalizadamente um estrangeiro quer dizer “green go”. Uma referência a como os índios nativo-americanos falavam para os soldados (fardados de verde) irem embora se suas terras.

Mas Ronaldo, é só um desenho! Deixe de ser politicamente correto!

Acredite, sou um dos maiores defensores do “politicamente incorreto” e detesto esse negócio de ter que ficar organizando o significado semântico das palavras para que as pessoas não fiquem “ofendidinhas” com qualquer vírgula que pronunciamos.

Na real, acredito que em alguns poucos momentos da minha vida o grande Nelson Rodrigues pareceria um Social Democrata perto de mim.

Mas termos a sensibilidade de enxergar comportamentos destrutivos como os apresentados em Pica-Pau é fundamental para darmos passos atrás antes de condenarmos com palavras, piadas ou declarações infâmias pessoas, ou grupos que em sua maioria são vítimas de algo muito maior do que ela.

Por exemplo, não vejo graça (porque pra mim realmente não tem), mas não vejo também problemas quando alguém faz uma piada com nordestino, católico, gordo, magro, gay etc…

Faz parte da liberdade individual ser um idiota e achar engraçado alguém ser alvo de chacota por conta de sua aparência, seus relacionamentos ou suas crenças. Costumo dizer que é preciso que alguém defenda a estupidez do socialismo para que possamos refutá-lo.

O problema é quando declarações como “nordestino vota com a barriga e depois vem pra SP atrás de emprego” passam a fazer parte do vocabulário de gente que não têm idéia do sofrimento que eles passam.

Ok, sim há gente que vende seu voto por uma dentadura ou um chinelo, e considerando que essas não são necessidades de todos, fica difícil analisar sobre uma perspectiva tão minimalista.

Olhemos então as famílias daquelas cidadezinhas de 4 ou 5 mil habitantes que não tem acesso a água a não ser por cisternas de alguns poucos fazendeiros “coronés”.

Você realmente acha que eles irão abrir mão de possivelmente sua única fonte de sobrevivência em nome da reforma da previdência ou incríveis acordos internacionais com os EUA?

Te pergunto: Eles são burros ou vítimas?

Liberdade e Responsabilidade

Você verá que este é um tema comum em meus textos. Não acredito que a liberdade seja condicionada a um consenso social e sim a um direito universal.

No entanto não é possível ser livre sem ser responsável por esta liberdade. Sendo este um portal sobre criptoeconomia, é sabido que esta é uma das possíveis ferramentas para alcance da autonomia financeira e traz consigo o ônus da responsabilidade por seus atos.

Sendo “financeiramente livre” você será responsável por pagar suas contas, bancar suas despesas, seus caprichos, vaidades, necessidades. De igual forma as pessoas são livres para votarem em quem quiserem e baseados nos motivos que quiserem (ainda que para mim, o voto não seja sinônimo de liberdade nem de democracia).  

Então antes de estereotipamos alguém por suas decisões ou pelo que aparenta ser, que tal procurarmos entender o porquê de suas decisões e qual sua verdadeira essência?

Pergunto novamente: Os nordestinos são burros ou vítimas?

Se há alguém que acredita que eles são burros então já sabemos quem é o Pica-Pau de 2019.

Sobre o criador de conteúdo

Prazer, eu sou o Ronaldo, estudante de Processos Gerenciais, entusiasta de criptoeconomia e amante de política. Vou trazer nesta coluna, uma visão um pouco diferente sobre política com muita cultura pop.

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