Depois de meses sem escrever para o Cointimes e testemunhando de longe as mais escandalosas bizarrices político-econômicas mundiais, cá estou eu aqui novamente. To de volta, não sei se pra ficar! Mas enquanto estiver aqui continuarei com o papel de coringa, basicamente não elegendo lados a menos que esse lado seja a liberdade e falando mal de todo mundo talvez em algum momento até da liberdade. Feitas as considerações, vamos ao assunto.

Hoje é o dia da mulher! Eu poderia fazer um acróstico bem fofinho e enchê-lo de palavras que caíram no gosto popular e que, portanto, já perderam o sentido – porque é isso que geralmente acontece quando precisamos organizar demais o significado semântico das palavras – como “empoderamento”, “gênero” e “machismo”, ou seja lá qual for a palavra da moda.

As mulheres esquecidas pela mídia

Ao invés disso – e que bom, porque eu não gostaria – quero trazer um pouco da informação que a mídia não divulgará neste dia.

Image result for Marie Curie nobel
Marie Curie, duas vezes Nobel de Química

Você sabia, por exemplo, que Maud Stevens Wagner (1877 – 1961) aprendeu a tatuar com seu marido e juntos disseminaram essa cultura por todo o interior dos EUA? Foi ela inclusive a primeira tatuadora profissional de que se tem notícia.

Marie Curie (1867 – 1934), figura importantíssima que descobriu dois elementos da tabela periódica (Polônio e Rádio), foi duas vezes vencedora do Prêmio Nobel de Química.

E que tal a Irmã Miriam Joseph (1931 a 1960), PhD e autora do Trivium (gramática, lógica e retórica) um dos livros essenciais para a formação acadêmica de toda uma geração.

E o que falar da “Dama de Ferro”, Margaret Thatcher (1925 – 2013), primeira mulher a ocupar o cargo de Primeira-Ministra do Reino Unido e que enfrentou índices elevados de desemprego por conta da recessão.

Talvez você ouviu falar de uma ou outra, e se conhece todas parabéns, mas é certo afirmar que pouca gente sabe de suas histórias. O que é contado hoje sobre a mulher dificilmente as inclui. E quando inclui, não expõe com muita exatidão e transparência todas as suas idéias.

Por que? Porque estamos “viciados” e “acomodados” com Joana d’Arc, Simone de Beauvoir e Maria da Penha.

Foram elas figuras importantes? Claro que sim! Mas a história da participação da mulher na sociedade não se resume a elas e não se resume a algumas chavões isolados.

Simone de Beauvoir, por exemplo, foi alguém que disse que “as mulheres só ganharam o que os homens concordaram em lhes conceder; elas nada tomaram; elas receberam”. 

Ela disse isso porque achava e com razão um absurdo as mulheres ficarem em casa cuidando das crianças enquanto seus maridos trabalhavam. Já reparou que a maior parte da programação televisiva é direcionada ao público feminino? Isso fica mais evidente ainda pela manhã, porque se sabe que nesse horário as donas de casa estão cumprindo seus afazeres. o programa da Fátima Bernardes não passará de madrugada. Por que será?

Mas a mídia é mágica em não contar isso e faz de tudo para resumir Beauvoir a “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. 

Mulheres sempre trabalharam, sempre ocuparam cargos civis, sempre tiveram sua parcela na participação econômica. O que não houve desde sempre e isso vem mudando é o reconhecimento formal dessa participação.

A atividade sacerdotal e religiosa no oriente até pouco mais de dois mil anos atrás era quase que exclusivamente feminina. A indústria têxtil era majoritariamente feminina, a enfermagem e hotelaria sempre foram majoritariamente femininas.

A mulher sempre participou ativamente da economia mundial e mesmo cientes desses fatos, muitos ainda continuam a propagar a idéia de extrema fragilidade e colocam a mulher em posição de vítima de uma entidade masculina quase que demoníaca.

Os mitos e clickbaits sobre as mulheres

Sim, há diferenças biológicas entre pessoas e isso em alguns momentos também influenciam e se estende a tomadas de decisões, governança, etc. Mas daí usar isso como muleta já são outros quinhentos.

Neste texto vamos analisar algo simples, porém um grande chavão que é repetido todos os anos nesta data:

Mulheres estudam mais e ganham menos que os homens, mesmo sendo maioria.

A afirmação claramente clickbait faz várias pressuposições que, se não indagadas seriamente construirão um pensamento muito nocivo. Sem aprofundamentos minimamente sérios as conclusões serão:

  1. Mulheres estudam mais que os homens, então são mais preparadas para o mercado de trabalho;
  2. Mulheres e homens disputam os mesmos cargos, exercem as mesmas funções, com mesma carga horária e mesmo tempo de casa e ainda assim ganham menos;
  3. Homens são privilegiados por ganharem mais;
  4. Mulheres são oprimidas porque ganham menos;
  5. A Justiça do trabalho é machista;
  6. O machismo, o patriarcado e pela lógica também a justiça injustiça do trabalho imperam nas empresas e rebaixa o salário da mulher.

Ruim? MUITO!
Agora com questionamentos sérios que levariam a conversa a outro nível:

  1. Mulheres estudam mais, mas geralmente começam a trabalhar tão cedo quanto os homens? (Questionamento importante porque em média homens começam a trabalhar por volta dos 14 anos e mulheres por volta dos 21. Anualmente os salários sofrem reajustes e obviamente alguém com cinco anos de casa sofreu cinco ajustes salariais, enquanto outro alguém com menos de um ano não sofreu ajuste nenhum);
  1. Há interesse majoritariamente feminino em executar funções de alto risco, periculosidade, insalubridade, que exijam deslocamento muito extenso ou trabalhos voltados para extremos das exatas como mecânica, astronomia, ciência de dados etc? (Importante questionar porque essas são funções com salários maiores).
  2. Seriam todos os empresários (homens e mulheres) burros demais e que adoram queimar dinheiro? Porque se o título estiver certo, o mercado preenchido apenas por mulheres seria absurdamente mais lucrativo.
  3. Segundo o título, uma mulher é automaticamente machista se contratar um homem, já que ele ganhará mais do que uma mulher na mesma função?

Por que é tão importante fazer questionamentos como este?

Porque a sociedade na totalidade vive um processo de emburrecimento crônico que é muito bem aproveitado por pessoas mal intencionadas. Boa parte das pessoas não gosta de ler e as que gostam estão se rendendo a lerem 20% de um texto. Isso está caindo mais e mais e hoje já tem se limitado a apenas títulos. É por isso que as conclusões imediatas sem ler uma matéria que tivesse esse título seriam os seis pontos que citei.

Ta, Ronaldo! Entendi! Mas o que causa então a diminuição do interesse da mulher pelas áreas que citou? Não seria o tal do patriarcado?

Num primeiro momento eu diria que não!

Não se entendemos o patriarcado como um sistema onde as lideranças,  a concentração do poder e outras áreas de influência são masculinas e sem possibilidade de ascensão feminina por mera vontade dos homens.

Lamento desapontar, mas não é isso que vivemos e não podemos pegar casos isolados como definição de toda uma sociedade.

Mas ainda existe, e é preciso citar, ainda existe muito preconceito, assédio e desrespeito. Por mais inteligente que seja, uma mulher pensará duas vezes antes de aceitar enfrentar três horas de ônibus e metrô para ir até um canteiro de obras ou qualquer ambiente que já tenham muitos homens, pra ficar ouvindo imbecilidades de alguns tarados.

Ainda que exista toda uma segurança jurídica que teoricamente deveria ser aplicada a todos, sabemos que a justiça nesse Brasilzão de meu Deus é bem questionável.

Por outro lado temos o empregador, que precisa conciliar toda uma enorme carga tributária de contratação e manutenção de um funcionário. Com todos os custos, um empregado custa praticamente o dobro para o empregador. Obviamente suas escolhas se inclinarão a um delta onde o empregado possa se doar por mais tempo, fazer mais horas extras se necessário, comece a trabalhar mais cedo.

Percebe que há inúmeras variáveis a serem consideradas dos dois lados e que são ignoradas pela mídia? Sem considerações como essas, a manchete que é será vendida será sempre o mesmo jargão sem filtro. Mulheres ganham menos porque o “patriarcado”, porque o “machismo”, porque fulano, beltrano, ciclano… E por aí vai.

Mas eaí? Você vem aqui bater e sair correndo sem uma solução?

Bom, a solução não é a coisa mais simples do mundo, mas é possível se apontarem para uma palavra: liberdade.

Sobre as contratações:

Num mercado mais livre, empregador e empregado em comum acordo poderiam definir carga horária de trabalho, salário, regras de convivência, etc.
Imagine que previamente acordado, empregado e empregador pudessem definir também a licença maternidade, férias, etc.

Menos intervenção de um órgão regulador e menos tributos daria mais liberdade para negociação de não somente o salário, mas tudo o que envolvesse a contratação.

Felipe Neto direito das mulheres

E se um “empresário capitalista malvadão” tentasse explorar seus funcionários pagando por exemplo menos a uma mulher do que a um homem pelos mesmos atributos, em um mercado livre outras empresas iriam oferecer condições melhores de trabalho porque tudo o que um empresário quer é o lucro e fará de tudo para ter os melhores profissionais com ele.

Sobre assédio, abusos e disparidade salarial:

Mulheres e homens querem ambientes saudáveis para trabalharem, querem dinheiro, reconhecimento, possibilidade de crescimento e segurança financeira. Tudo o que não querem é um ambiente autoritário, de exploração, abusos e desrespeito.

Se isso acontecesse em um mercado mais livre, o empregador poderia mandar embora um empregado mais facilmente. Num primeiro momento, ainda que pela autoridade, o medo faria com que as pessoas se respeitassem mais, mas isso evoluiria com o tempo para um ambiente de respeito e colaboração.

Não acredite na falácia de que quem tem medo não respeita. Esse é o tipo de conduta  de não me toque que atrasa a educação no que diz respeito ao convívio social em várias esferas da sociedade.

Este texto não tem como objetivo julgar a necessidade, utilidade ou eficiência de movimentos em prol dos direitos da mulher. Aqui exalto a imagem dela por sua força, dedicação, inteligência, garra e contribuição.

Exalto também grandes mulheres que no passado transformaram o perímetro ao seu redor, não pelo vitimismo ou por pensa que o mundo lhes deve alguma coisa pelo simples fato de serem mulheres, mas pela iniciativa de lutarem pela liberdade de todos, seja através das artes, ciência, política, etc.

Certamente ainda há muito o que fazer. É preciso conscientizar as pessoas de que quando há liberdade há opções, quando há opções há disputa, quando há disputa há a estratégia de oferecer o melhor ou as melhores condições.

Quando há liberdade há progresso, evolução. Quando há monopólio há retrocesso e involução.