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Estudo inédito mostra quem é o investidor brasileiro de criptomoedas

perfil do investidor de criptomoedas

Texto escrito por Fernando Tancredi e Tarik Abdala.

Desde 2017, o mercado brasileiro de criptomoedas tem se mostrado em grande expansão. O volume mensal de negociação em exchanges brasileiras aumentou quase 50 vezes em um ano, o número de investidores cadastrados superou a B3 e o Tesouro Direto e a cada mês podemos ver uma nova plataforma de negociação de criptomoedas surgindo por aqui. Com esse crescimento, é notável o surgimento de um novo tipo de investidor brasileiro, com características e motivações próprias, distintas daqueles que estão no mercado tradicional: o investidor brasileiro de criptomoedas.

Em pesquisa realizada em maio de 2018 para um trabalho de conclusão do curso de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), procurou-se entender as características, motivações e percepções do investidor de criptomoedas no Brasil. Os resultados comprovam a hipótese de que um novo tipo de investidor tem surgido no mercado de criptomoedas, com um perfil diferente do investidor tradicional. O trabalho está registrado no blockchain do Bitcoin e pode ser conferido na íntegra aqui.

Vamos conhecer melhor esse novo investidor?

Jovem e de baixa renda

O investidor brasileiro de criptomoedas é, em geral, do sexo masculino, jovem e possui baixa renda. Mais de 90% dos investidores são homens, e sua média de idade é de 28 anos. Cerca de 57,2% dos investidores têm entre 20 e 30 anos, e apenas 10% deles possuem mais de 41 anos. Na B3, a bolsa de valores paulista, a média de idade é bem maior: 80,7% dos investidores cadastrados têm acima de 36 anos.

Dos investidores, 69,7% possuem renda mensal individual até R$5.000 e apenas 13,3% possuem renda mensal individual superior a R$10.001. Isso evidencia uma maior inclusão financeira propiciada pelo mercado de criptomoedas, que permite investimentos a partir de R$100 em algumas exchanges, como a Foxbit. Comparativamente ao mercado financeiro tradicional, este é um pré-requisito relativamente baixo para começar a investir. O investidor tradicional, segundo relatório da Anbima, possui em média R$28.500 em aplicações financeiras, o que evidencia essa diferença entre mercados.

Além de seu perfil jovem e de baixa renda, o investidor brasileiro de criptomoedas também se mostra inexperiente no que diz respeito a investimentos: 45,2% dos investidores não possuem investimentos tradicionais, como títulos públicos e privados, ações, cotas em fundos ou outros ativos.

Pela sua idade média e renda, podemos inferir que as criptomoedas são, em geral, o primeiro ativo financeiro desse novo investidor. Dado o baixo conhecimento do brasileiro sobre alternativas de investimento e o fato de que 40% da população possui dinheiro aplicado em poupança (IBOPE, 2011) – investimento tradicionalmente menos arriscado – pode-se observar uma mudança de comportamento e motivação do brasileiro médio em relação a investimentos, que busca atualmente alternativas mais voláteis e arriscadas, com retornos potencialmente maiores.

Portfólio de criptomoedas

No Brasil, assim como se verifica no mercado mundial, o Bitcoin é a criptomoeda mais comum entre os investidores, estando presente no portfólio de 85,9% destes. Esse fato pode ser explicado pelo crescimento do mercado no país, que sempre contou com poucas exchanges oferecendo criptomoedas alternativas. Assim, devido à falta de pares de negociação entre reais e outras criptomoedas, o Bitcoin acabou se consolidando no mercado brasileiro até mais que no mercado mundial, que hoje conta com uma dominância do Bitcoin de cerca de 48%.

Em menor número, Ethereum (47,7%), Litecoin (29,9%), IOTA (21,2%) e Ripple (21,2%) completam a lista das cinco principais criptomoedas que compõem o portfólio dos brasileiros. Observa-se que o portfólio do investidor brasileiro de criptomoedas é composto, em média, por 3 criptomoedas. Porém, também há casos de investidores com uma única criptomoeda em seus portfólios e, destes, em 75,5% das vezes, essa criptomoeda é o Bitcoin.

Familiaridade com o tema

O investidor brasileiro de criptomoedas é, em geral, familiarizado com o tema no qual está inserido. Ao analisar o seu conhecimento através de diferentes termos do mercado de criptomoedas, pode-se observar que há uma maior familiaridade com termos mais corriqueiros, enquanto que termos mais complexos se mostram menos conhecidos entre os investidores. Além disso, a familiaridade com o tema está inversamente correlacionada com a idade do investidor: quanto menor a idade do investidor, maior o seu conhecimento sobre o mercado.

Termos mais simples, como “criptomoedas”, “blockchain” e “wallet”, demonstraram ser familiares – ou até muito familiares – para mais de 80% dos investidores. Porém, ao apresentar termos mais complexos em que se exige um conhecimento mais aprofundado sobre o tema, como “double spending”, “proof-of-work” e “hash”, a não ou pouca familiarização com o tema é de cerca de 50% entre os investidores. Será que é preciso realmente conhecer a tecnologia para usá-la ou investir nela?

Motivações para compra

Cada investidor possui seus motivos próprios para comprar e investir em criptomoedas. Observa-se que, entre os principais motivos para a compra, estão o “ganho financeiro em longo prazo” (89,6%), “apoio a projetos” (74,7%), “curiosidade sobre o assunto” (74,3%), “alternativas aos sistemas monetário e bancário vigentes” (71,8%) e o uso das criptomoedas como “meio de troca futuramente” (70,1%). É válido destacar, também, uma parcela dos investidores brasileiros que adquirem criptomoedas para não pagar impostos: são 38,6% dos investidores nessa situação.

Entre as motivações para compra menos presentes nos investimentos de criptomoedas, podemos destacar a motivação de compra pelo “hype”, ou seja, comprar “porque todos estão comprando”, presente em apenas 11,6% dos casos. A motivação para compra por recomendação de terceiros também se mostrou pouco contemplada: apenas 16,2% dos investidores admitem terem comprado criptomoedas porque outros lhes recomendaram.

Apesar disso, esse resultado é passível de debate. Na pesquisa, observou-se que a grande entrada de investidores no mercado se deu durante o segundo semestre de 2017, período de maior crescimento do valor do Bitcoin. Será que a entrada dos investidores nesse período se deu pelo aumento do valor e da consequente popularização do Bitcoin, ou pela crença em projetos e na tecnologia em si?

Percepções atual e futura

Na pesquisa, procurou-se entender as percepções atual e futura dos investidores sobre as criptomoedas. Atualmente, os investidores brasileiros as enxergam, principalmente, como investimento especulativo (71,8%), ativo financeiro (66,8%) e reserva de valor (66,8%). O cenário é outro quando o investidor olha para o futuro: o uso das criptomoedas como meio de troca (85,1%) e unidade de conta (51,5%) vão se tornar relevantes, ao passo que apenas 37,8% consideram que elas continuarão sendo um investimento especulativo.

Pode-se inferir que a baixa percepção das criptomoedas como meio de troca atualmente se deve, principalmente, pela sua volatilidade e altos preços ao longo dos últimos meses. Entre os investidores, 82,6% não consideram as criptomoedas como uma forma de unidade de conta atualmente, mas no futuro essa visão se altera.

Os investidores acreditam em uma maior estabilidade nos preços das criptomoedas e em um aumento do seu uso como meio de troca. Essa crença se mostra presente também na percepção das criptomoedas como investimento especulativo, isto é, obtenção de lucro rápido e elevado. Atualmente, com alta volatilidade de preços, as criptomoedas são consideradas um investimento especulativo para 71,8% dos investidores; com a diminuição de sua volatilidade e a possibilidade do seu uso como meio de troca no futuro, apenas 37,8% as classificarão como investimento especulativo.

Conclusões gerais

Resumidamente, o investidor brasileiro de criptomoedas é, em geral, do sexo masculino, jovem, com baixa renda, que entrou recentemente no mercado e se considera altamente familiarizado com o assunto. É um investidor que visa ganhos financeiros no longo prazo, mas que, ao mesmo tempo, compra criptomoedas como uma alternativa aos sistemas monetário e bancário vigentes. Atualmente, ele vê utilidade nas criptomoedas principalmente como um investimento especulativo, mas, futuramente, acredita em uma maior utilidade como meio de troca e ativo financeiro.

O número total de investidores brasileiros de criptomoedas ainda é pouco relevante quando comparado aos investidores tradicionais. Por isso, faz-se relevante, também, entender qual é o potencial desses não investidores adquirirem criptomoedas algum dia. Pela pesquisa realizada, é possível concluir que o não investidor brasileiro de criptomoedas, em geral, está interessado em comprá-las no futuro.

Porém, ele demonstra que ainda não o fez devido à falta de instrução e à falta de tempo para se aprofundar no assunto. Isso indica que, no Brasil, ainda há uma lacuna de conhecimento a ser preenchida para que potenciais investidores efetivamente se insiram no mercado. Está na hora de educar os brasileiros sobre o assunto!

Sendo assim, contribuindo para a expansão do conhecimento sobre o mercado brasileiro de criptomoedas, espera-se que esta pesquisa tenha cumprido com seus objetivos de oferecer uma visão mais clara do perfil do investidor de criptomoedas no Brasil e do potencial do não investidor de criptomoedas entrar nesse mercado. Este ainda se mostra em crescimento e em seu caminho rumo à descentralização do dinheiro e de outros ativos através de tecnologias como o blockchain.

Se interessar, você pode conferir, na íntegra, todas as análises, resultados e referências do trabalho aqui.

Texto escrito por Fernando Tancredi e Tarik Abdala.

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