“Primeiro eles te ignoram, depois riem de você, depois brigam e então você vence.”

Em uma reportagem exibida na quinta-feira (6) no programa de TV Kontraste, da Alemanha, o bitcoin foi chamado de “assassino do clima”.

A matéria começa com uma imagem de terra seca fragmentada, dizendo que o mundo concorda que temos que economizar CO2, mas que o Bitcoin faz o oposto disso.

O canal, que é apoiado economicamente pelo governo alemão, se baseou em dados de Alex de Vries, um cientista financiado pelo Banco Central da Holanda, para calcular o gasto energético do Bitcoin.

O criptoativo é colocado no meio uma lista dos países que mais gastam energia atualmente. Enquanto a Alemanha e o Brasil ocupam o sexto e o sétimo lugar, respectivamente, o Bitcoin estaria em 12º, se fosse um país.

Ranking dos países que mais gastam energia no mundo e o Bitcoin.
Ranking dos países que mais gastam energia no mundo e o Bitcoin. (Reprodução/Ardmediathek.de).

A mineração de bitcoin realmente é uma tarefa que requer bastante energia elétrica, mas é importante ressaltar que a poluição vem da criação de energia, e não do gasto. E nesse sentido, vale notar que mais da metade da mineração de bitcoin advém de energias limpas, segundo relatório da Ark Investments.

Mas a reportagem vai mais longe e afirma que “a mineração cria segurança, a segurança cria confiança e a confiança leva a uma tendência ascendente [do preço do bitcoin].”. No entanto, para Christoph Bergmann, do BitcoinBlog, isso inverte a lógica: um preço em alta tende a elevar o poder de hash, e não o contrário.

De acordo com Bergmann, a matéria explica corretamente o que a mineração de bitcoin faz, mas segue com declarações vagas e omissões de dados importantes, além de “erros, desleixos e declarações falsas”.

“O Bitcoin pode usar tanta eletricidade quanto a Suécia ou a Holanda – mas a eletricidade representa apenas um sexto do consumo global de energia. O resto vai principalmente para aquecimento e meios de transporte, que com gás e óleo são geralmente muito mais intensivos em CO2 do que eletricidade.”, diz o blogueiro.

Leia mais: O Bitcoin não é inimigo do meio ambiente, como aponta a mídia tradicional

Depois da reportagem ir ao ar em TV aberta, alguns especialistas que foram entrevistados relataram que suas falas foram distorcidas para ajudar a narrativa do Bitcoin como vilão do meio ambiente. Markus Buch, por exemplo, disse que explicou para os jornalistas como existem iniciativas para tornar a mineração mais verde e que o halving tem efeito positivo, na sua opinião, em relação à redução do consumo de energia ao longo do tempo. Nada disso foi mostrado na matéria.

Privacidade, um problema para os alemães?

Mas apesar de todos os erros da reportagem, o que mais chamou a atenção da comunidade de criptomoedas foi o encerramento. O mais novo bilionário do mundo cripto, Vitalik Buterin, é mostrado em uma palestra falando sobre o Ethereum 2.0, a atualização do blockchain que deve alterar o modelo de consenso de proof-of-work (PoW) para proof-of-stake (PoS).

Com isso a rede deve gastar bem menos energia de um modo geral, mas esse não é o caminho escolhido pelos desenvolvedores do Bitcoin. Rene A., um especialista em mineração, disse que explicou ao jornalista por que o PoW é importante e por que é impossível para os desenvolvedores alterar o algoritmo sem o amplo consenso dos usuários. Mas isso não foi ao ar, em vez disso a matéria diz que os desenvolvedores “se recusam” a tornar o Bitcoin mais ecologicamente correto.

E, embora Buterin tenha aparecido como uma espécie de herói, os principais programadores do Bitcoin Core só apareceram em fotos, com os olhos pixelados, afinal estão cometendo o grande “crime” de não considerarem a mudança no modelo de consenso do BTC.

“A emissora pública alemã DasErste fez alguns dos desenvolvedores de Bitcoin parecerem criminosos mesquinhos em seu programa ARDKontraste na noite passada. Precisamos encontrar maneiras de combater esse tipo de difamação financiada publicamente.”, disse o usuário FulmoLightning no Twitter.

Nicolas Dorier, desenvolvedor do BTCPay Server, brincou que Pieter Wuille (desenvolvedor do Bitcoin Core) já se parece com o Professor de La Casa de Papel, “o mentor do roubo ao banco central em pessoa”.

Apesar do rosto de Vitalik aparecer normalmente na matéria, algumas pessoas responderam ao tweet alegando que a borragem dos rostos dos desenvolvedores do Bitcoin está de acordo com as leis alemãs de privacidade de dados.

O dev Orionwl, que também aparece na reportagem, disse que ficou feliz por seu rosto ter sido borrado, “eu não sei o quanto posso deixar mais claro que eu não consinto em usar minha foto do que, tendo aproximadamente nenhuma foto online”, afirmou.

De fato, a Alemanha é conhecida pelo seu cuidado com a privacidade, o que é curioso pois eles não citam a transparência do Bitcoin como uma desvantagem. Para a mídia tradicional, parece ser interessante manter a narrativa de que o bitcoin é a moeda perfeita para criminosos, mesmo que isso tenha sido desmentido por diversos agentes públicos que participaram de investigações com crimes que envolvem utilização de criptomoedas.

Mas qual a sua opinião sobre a maneira em que os desenvolvedores do Bitcoin foram retratados em TV aberta? Deixe seu comentário abaixo.


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