Um texto do economista Adeilton Filho.

Muito tem se falado do tão aguardado halving do Bitcoin que está por vir, onde a expectativa é de que finalmente, com uma oferta menor de moedas circulando, ocorra uma disparada no preço do Bitcoin. Mas o que pouco se comenta é, se isso de fato possui uma relação de causa e efeito irrefutável, ou seja, se quando a oferta diminui, seu preço aumenta naturalmente, ou ainda, se isso seria realmente um processo cronologicamente previsível, como se especula.

A importância da demanda

Aumento de preço é sem dúvidas uma matéria da ciência econômica, e nunca é demais lembrar que economia não é uma ciência exata, embora use ferramentas matemáticas para as resoluções de problemas analíticos e teóricos, suas análises e teorias dependem do comportamento humano e consequentemente social do escopo a ser estudado.

Foi a ação humana que fez o avião, um objeto naturalmente mais pesado que o ar, voar. A mesma ação que promoveu à humanidade a troca monetária sem a necessidade de um agente central, por meio do blockchain. O que antes de 2008 seria algo naturalmente impossível. É com essa variável bastante imprevisível que os analistas econômicos têm que lidar todos os dias.

A relação oferta e demanda é tão bem ajustada que praticamente pode se dizer que se trata da única “lei” econômica. Mas na verdade não há lei alguma, as coisas simplesmente carecem de estar constantes, e as ações mantidas, para que o resultado realmente ocorra.

Para que os preços sejam impulsionados devido a escassez, se faz necessário não somente que se reduza a oferta, mas também que a sua demanda esteja ao menos mantida, portanto é um detalhe que as vezes passa por despercebido quando o assunto é o halving.

Na literatura não há dúvidas que a demanda é sempre o elemento mais importante quando o assunto é aumento de preço, pois nota-se que mesmo usando um ativo que não tem restrições em sua oferta, se a demanda for forte, ainda assim, pode pressionar seu preço para cima.

Um fato interessante para se observar é que muitos desenvolvedores já perceberam essa peculiaridade, e ultimamente temos um aumento recente de moedas inflacionárias ou com algum afrouxamento em sua emissão, seja na sua formação original ou como implemento recente. Casos como os das moedas Doge, Grin, Monero, e recentemente os desenvolvedores da Waves, já cogitam essa possibilidade, fora tantas outras moedas do mercado, que reforçam essa nova postura.

Afinal de contas é mais fácil popularizar e atrair usuários de uma moeda por meio de sua emissão do que pela sua contração.

O mercado está precificado?

“Compre no boato e venda no fato” é um conhecido jargão dos investidores, que representa a forma como os principais players tendem a agir antes da efetividade dos eventos. O preço do bitcoin chegou a crescer mais de 16,28% desde o último ano, e acumulou uma expressiva alta de mais de 120% do início deste ano até o momento dessa escrita, portanto um aumento substancial, que ocorre no último ano em que o valor da recompensa dos mineradores será de 12,5 bitcoins. Isso permite nos questionar se esse aumento já não seria o mercado precificando o halving, que ocorrerá daqui à aproximadamente 200 dias.

Se de fato o mercado já tiver precificado o halving, infelizmente mesmo com uma redução forte da oferta não acarretaria um aumento tão expressivo como esperado, pois a demanda já se anteviu ao evento.

Certamente, deve-se questionar se o aumento ocorrido nos últimos meses não foram devidos a outros fatores, que não estão relacionados ao evento do halving, como o ainda crescentes números de usuários, a evolução da Lightning Network e principalmente o lançamento da Bakkt, são fatores que não podem ser descartados, porém existe o grande problema em correlaciona-los de maneira precisa com os últimos aumentos do preço do bitcoin.

No primeiro momento, destaca-se que todos esses fatores diferentemente do halving, são eventos com impacto para o longo prazo, portanto difíceis de serem precificados. Um outro ponto que reforça essa abordagem surgiu de forma escandalosa a poucos dias, com a denúncia de que o governo dos EUA tentou manipular o mercado para provocar uma bolha, e consequentemente seu estouro utilizando os contratos futuros do bitcoin.

Ora, muitos correlacionavam o sucesso da Bakkt com o sucesso dos contratos futuros do bitcoin ofertados pela CME, todavia agora se acredita que tudo não passou de uma armação, logo, já não se pode afirmar que os principais players do mercado, sem essa ação do governo, apresentariam uma demanda tão significativa. Ou seja, existe sim a possibilidade do halving ser o maior responsável pelo atual crescimento da moeda.

O que dizem os números

Segundo o Google trends as buscas pelo termo “bitcoin halving” teve nos últimos 12 meses uma elevação muito próxima como o aumento do preço do bitcoin no mesmo período.

halving do bitcoin
Fonte: Google Trends.

Se colocarmos os valores do termo de busca comparando com a evolução do preço do bitcoin no mesmo período temos o seguinte resultado:

halving do bitcoin
Fonte: Google Trends e Investing.com, adaptado pelo autor.

A figura acima aparentemente demonstra que as buscas no termo tendem a se correlacionar fortemente com as flutuações do preço, em escala logarítmica nas últimas 52 semanas, mas para saber se essa correlação é estatisticamente significativa foi feito o teste de correlação de Pearson, como também um gráfico de dispersão. O Teste de Pearson auferiu o seguinte resultado:

halving do bitcoin
Fonte: autor.

O teste apresentou uma correlação de direção positiva de 0,78 que caracteriza uma alta correlação entre as variáveis, com p-valor estatisticamente significante, que, embora não indiquem casualidade são elementos muito fortes para a afirmação proposta nesta pesquisa.

halving do bitcoin
Fonte: autor.

Na figura do gráfico de dispersão acima, é possível visualizar o movimento positivo entre o aumento do termo “Bitcoin Halving” no mundo e o preço do bitcoin durante o mesmo período analisado, em escalas logarítmicas.

O impacto de uma precificação

Por meio desses dados é possível especular, mas nunca afirmar, que o halving de 2020 vai ser o mais longo para se alcançar o valor máximo, em termos técnicos ele terá a menor aceleração entre os halvings antecessores.

Isso ocorre, pois a demanda que impulsionaria os preços mediante a escassez futura se concentrou em boa parte no período anterior, portanto ao antevir o movimento de alta, a pressão nos preços do bitcoin se deu com uma oferta maior de moeda que tem menos impacto em comparação ao momento futuro quando a oferta será reduzida.

Outro fator importante será o comportamento dos mineradores, afinal muitos deles sairão do mercado, pois os custos permanecerão constantes, já a alta dos preços deverá levar mais tempo que os halvings anteriores, sendo assim, haverá um possível despejo de moedas no mercado por parte desses mineradores, que não conseguirão sobreviver a um

período maior para a realização de lucros. Esse efeito não deve ser significativo, mas contribuirá para elevar o tempo em que os preços atinjam os valores estratosféricos que muitos aguardam.

É importante salientar, que esse fenômeno já vem sendo observado, afinal a cada halving o tempo para o pico é cada vez maior, pois há o aumento da base (tempo) e uma redução de sua altura (preço), todavia, o que aparentemente os números mostram é que dessa vez o “Bull market” pode levar ainda mais tempo do que se especula. Quanto? Não é possível afirmar, é preciso ter cautela, pois definitivamente não se trata de um processo cronologicamente previsível.

Conclusão

Assim podemos intuir que existe uma possibilidade estatística de que o mercado já tenha precificado o halving, embora isso reforça que o período para o bull market levará ainda mais tempo, e consequentemente conter ainda mais o alcance do preço final do bullish, nada que ainda não possa se aproximar dos mil de pontos percentuais.

Outro fator importante é que não existe a possibilidade de adivinhar o que ocorrerá neste mercado para os próximos anos, pois o bitcoin tem poucos anos de dados, e um potencial enorme, que é ímpar na história econômica. Portanto, tais resultados não devem abalar os investidores, pois como mostrado, grandes avanços estão sendo feitos e no geral a tendência para o bitcoin, e o mercado cripto, é muito promissora.


Quer aprender mais sobre Bitcoin? Conheça o Cointimes Research | Bitcoin o maior relatório brasileiro sobre Bitcoin. São 60 páginas com tudo que você precisa saber sobre o presente e o futuro da maior criptomoeda do mercado.