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Como seria o uso de blockchain em eleições? Blockchain

Como seria o uso de blockchain em eleições?

Como seria uma eleição usando blockchain? Confira aqui!

Lucas Bassotto
Lucas Bassotto

Não temos dúvidas sobre a segurança da tecnologia Blockchain. Há mais de 10 anos que a base de dados do Bitcoin se mantém intacta, firme e resiliente, o que é digno de um roteiro heróico diante da internet que temos hoje. Até mesmo gigantes da tecnologia como Google e Sony já tiveram seus sistemas subvertidosDiante desse cenário, muitos entusiastas da tecnologia se sentem tentados a aplicar o uso de blockchain em eleições.

Afinal, é muito tentadora a ideia de eleições descentralizadas. Nesse post você vai conhecer como seria essa aplicação e os pontos positivos e negativos derivados dela.

Como seria possível usar o blockchain em eleições?

Vejo muitas pessoas falando sobre o uso de blockchain em eleições, no entanto, pela dificuldade do assunto, poucas realmente abordam o tema de forma mais aprofundada. A minha missão é fazer uma análise sobre como seria essa aplicação.

O governo contrataria, ou ele mesmo desenvolveria, uma plataforma e um token que representa um voto. Essa plataforma poderia ser acessada por smartphones ou computadores, de acordo com o que o governo achar melhor. Se ele preferir, pode estabelecer zonas eleitorais presenciais como ocorre atualmente, mas a vantagem da facilidade e redução de custos seria perdida.

Depois de desenvolvidos a plataforma e o token, provavelmente seria desenvolvido um smart contract para proteger a integridade do processo eleitoral. Caso seja detectada alguma fraude ou problema nos votos, todos os tokens seriam devolvidos para a carteira dos eleitores, sendo necessário recomeçar o processo.

Ainda poderia ser programada uma cláusula que possibilite o retorno do voto para um único eleitor caso o voto dele tenha sido diferente do que ele realmente pretendia. Nesse caso, ele precisaria votar novamente, não sendo necessária uma nova eleição por conta de um voto manipulado.

Como seria o processo de votação?

Depois que toda infraestrutura foi desenvolvida, seria necessário encontrar uma maneira de vincular a identidade do eleitor com a chave pública criptografada dele (Exemplo de chave pública: endereço do Bitcoin ou 1F1tAaz5x1HUXrCNLbtMDqcw6o5GNn4xqX), isso tornaria os votos secretos e auditáveis ao mesmo tempo.

Como consequência precisaríamos de um sistema que faça o reconhecimento facial e biométrico cruzando com a base de dados que já existe atualmente.

Com isso, bastaria registrar os eleitores na plataforma, gerar os tokens de acordo com a quantidade de eleitores cadastrada e a quantidade de candidatos que eles deverão votar, no caso das eleições presidenciais: Presidente, Senador, Dep. Federal, Dep. Estadual e Governador. Nesse caso, cada eleitor deveria ter 5 tokens e cada carteira deveria aceitar somente 1 token por chave pública.

Cada candidato teria um endereço, nesse caso, o eleitor faz a transação de 1 token para o endereço do candidato. Um fato importante é que esse token não poderia ser divisível, ou seja, não pode haver a possibilidade de uma pessoa enviar 0,5 votos para cada candidato.

blockchain em eleições
Exemplo de como seria uma votação em blockchain

Essa transação ficaria registrada na blockchain e seria imutável. No fim, o candidato que mais receber mais tokens em seu endereço será o vencedor da eleição.

No dia da eleição, bastaria liberar o acesso à plataforma e permitir que a votação seja realizada. Quem não conseguir se conectar na internet, deve ir até uma zona eleitoral para votar utilizando a plataforma. Depois de fechado o período para votação, seria liberado um site como o Blockexplorer que temos hoje. Através do site, os eleitores poderiam consultar seus votos e conferir a apuração.

Aspectos positivos de uma eleições em blockchain

De fato, uma eleição em blockchain seria extremamente interessante de se acompanhar. No entanto, deve demorar um pouco até que a tecnologia seja utilizada de fato nas principais eleições do mundo. A tendência é que ela seja adotada aos poucos para um número muito pequeno de eleitores. As vantagens são claras e serão listadas em tópicos abaixo.

Transparência

O blockchain é um banco de dados público e descentralizado. Ou seja, todas as informações inseridas nele são facilmente auditáveis. Atualmente nossas eleições possuem pouca ou nenhuma transparência. De fato, nossas urnas eletrônicas da Smartmatic são uma caixa preta e as informações são inacessíveis para a população. Nós podemos saber quantos votos cada candidato recebeu olhando o boletim de apuração, mas ainda assim falta transparência.

Uma eleição em blockchain poderia facilmente tornar todo o processo inteiramente transparente. Uma pessoa teria uma chave pública criptografada associada à sua identidade, desta forma, ela poderia facilmente consultar seu voto através de um “block explorer”, exatamente como fazemos ao consultar uma transação com Bitcoin.

Agilidade e desburocratização

Outro ponto positivo seria a agilidade da apuração. Para saber qual candidato ganhou é só comparar quem recebeu mais transações. O resultado seria simultaneamente conhecido conforme os eleitores vão votando. As apurações atuais já possuem um bom grau de velocidade, mas uma apuração utilizando Blockchain seria mais rápida ainda, bastaria ver o saldo dos endereços dos candidatos.

Com uma eleição em Blockchain seria perfeitamente possível votar sem a necessidade de ir até um ponto de sua cidade, esperar e só então votar. Toda essa burocracia é eliminada quando o voto pode ser feito pela internet, de qualquer lugar.

Redução de custos

Essa terceira opção é válida quando houver maior popularização e domínio de técnicas de programação em blockchain, isso reduziria bastante o custo tecnológico. Além disso, uma eleição em blockchain reduziria bastante os custos com zonas eleitorais, infraestrutura, transporte e segurança de urnas, etc. Contudo, ainda seria necessário um número reduzido de zonas eleitorais para aqueles que não dispõem de internet no momento.

Aspectos negativos de eleições em blockchain

Apesar dos pontos positivos abordados, há grandes desafios para que o Blockchain seja utilizado em larga escala nas eleições. Como toda tecnologia nova e em desenvolvimento, não seria possível aplicar blockchain em eleições do dia para a noite. Agora vamos tratar dos aspectos negativos dessa aplicação de Blockchain. Os pontos mais preocupantes são em relação à segurança das informações.

Blockchain é um banco de dados

Antes de mais nada, o Blockchain é um banco de dados. No entanto, o que torna ele tão inovador é a sua forma de armazenar dados, descentralizado, sem intermediários ou qualquer autoridade. O Bitcoin é o “santo graal” de aplicação em blockchain, mas ainda assim, podemos definir a tecnologia como um banco de dados descentralizado.

O fato de o blockchain ser um banco de dados não resolve de forma decisiva o problema das eleições no Brasil. O maior problema é a segurança da urna eletrônica que poderia distorcer as eleições contabilizando os votos diferente do que originalmente seriam. Como um banco de dados, a blockchain poderia sim, armazenar com segurança os votos, mas isso não tornaria uma eleição de fato mais segura.

O problema é o elo mais fraco

O potencial do Blockchain não é nada dúbio, no entanto, o que preocupa é o que está no meio do caminho. O blockchain não pode proteger a informação que viaja através da internet, da plataforma para o banco de dados, podendo ela ser modificada ou subvertida facilmente por um hacker. Além disso, outro grande problema seria verificar a identidade de cada pessoa que está votando.  

Para resolver o segundo problema poderíamos criar chaves públicas únicas vinculadas a uma pessoa, mas isso não resolve o problema da coerção. Infelizmente ainda existe o bicentenário problema do Coronelismo em pequenas cidades brasileiras. Um “coronel” poderia saber a chave pública da população local. Com isso, os votos não seriam secretos e sim escancarados.

Existe também a possibilidade do voto de cabresto. Nada impede que um criminoso aponte uma arma na minha cabeça e me obrigue a votar no candidato dele, isso ocorreria facilmente em áreas dominadas por facções criminosas, que infelizmente é a realidade do Rio de Janeiro. Pelo menos em zonas eleitorais esse problema é mitigado com a presença de fiscalização.

Outro problema é o meio pela qual a informação chegará ao blockchain. Caso seja utilizada uma plataforma para votar, o que garantiria que o voto que eu digito no programa chegaria exatamente igual na blockchain? Nesse caso, um smart contract bem definido poderia ajudar a resolver esse problema. Mas ainda assim, nem todas as pessoas auditariam seu voto, logo, haveria a possibilidade de muitos votos serem fraudados.

Smartmatic 2.0 – Blockchain Edition

Se o código da plataforma for fechado, teríamos uma espécie de Smartmatic 2.0 Blockchain Edition. Nesse caso, a votação não teria nada de inovador, apenas teríamos um sistema centralizado e fechado utilizando um blockchain para armazenar os dados. Se não for possível auditar os votos, nada de novo teremos de fato.

Ainda assim, um software aberto não garantiria necessariamente a segurança da eleição, porque ainda teríamos problemas com verificação de identidade e coerção, que identificamos acima. Além disso, conduzir uma votação pela internet seria extremamente irresponsável sob o ponto de vista de segurança. Mesmo que o software seja aberto, isso não garante que as escolhas do eleitor serão refletidas nele e no blockchain

Blockchain poderia justificar uma fraude

O argumento de uso da blockchain em eleições é a sua inviolabilidade. Isso poderia se transformar em um argumento para políticos suspeitos de fraude. Afinal, se usa blockchain, não poderíamos questionar. Aquele político acusado de fraude falaria: “Está na Blockchain, que é um sistema muito mais efetivo do que o nosso”.

30% da população ainda não tem internet

Segundo o IBGE, aproximadamente 30% da população brasileira ainda não possui acesso a internet, seja por smartphone ou computadores. A maioria dessa população de 21 milhões de pessoas se concentra principalmente no Nordeste. Além disso, quase 24 milhões de brasileiros não utilizada a internet por falta de conhecimento.

Esses números mostram que há um desafio gigantesco, o que indica que o uso de blockchain em eleições não ocorrerá nem tão cedo. No entanto, a tendência é que esse problema seja resolvido nas próximas décadas com o barateamento de linhas telefônicas, celulares, computadores e internet banda larga.

Blockchain em eleições? Nem tão cedo

A blockchain é uma tecnologia instigante e altamente promissora. Os ramos industriais de finanças, logística e farmácia serão amplamente afetados pela transformação que a tecnologia propõe. No entanto, há grandes desafios em relação à sua aplicação em processos eleitorais. Infelizmente a tecnologia ainda não está preparada para ser utilizada em larga escala. No entanto, é possível fazer pequenas pequenas aplicações de blockchain em eleições com poucos eleitores. Como já está sendo feito na ABFintechs:

ABFintechs realiza primeira eleição em blockchain no Brasil

Abaixo deixo algumas referências em relação a alguns dados que coloquei nesse post. Os dois artigos da Technology Review, revista do MIT, levantaram pontos interessantes acerca da segurança do Blockchain. São leituras recomendadas e relevantes, que me ajudaram a tirar insights que coloquei aqui.

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Referências

https://oglobo.globo.com/economia/brasil-ainda-tem-21-milhoes-de-lares-sem-internet-22416813

https://oglobo.globo.com/economia/2018/02/21/2270-quase-24-milhoes-de-brasileiros-nao-usam-internet-por-falta-de-conhecimento

https://www.technologyreview.com/s/611850/why-security-experts-hate-that-blockchain-voting-will-be-used-in-the-midterm-elections/

https://www.technologyreview.com/s/610836/how-secure-is-blockchain-really/?utm_source=newsletters&utm_medium=email&utm_content=2018_08_09&utm_campaign=chain_letter

Lucas Bassotto
Lucas Bassotto

Sou Lucas Bassotto, graduando em Economia. Um grande entusiasta do mundo da criptoeconomia. Atualmente trabalho na Foxbit produzindo conteúdo.