Economia compartilhada

A economia compartilhada pode trazer grandes impactos na maneira que enxergamos o crescimento econômico. Atualmente é possível se locomover pela cidade sem precisar comprar um carro ou uma bicicleta, para fazer isso você pode utilizar Uber ou Yellow. O conceito de economia compartilhada está se expandindo para todos os campos possíveis: imóveis, automóveis e entretenimento.

Para ouvir seu músico favorito nos anos 70 você precisaria de um aparelho de vinil, caixas de som e o próprio disco, ou seja, você precisaria comprar um monte de coisas. Hoje dá para você vai fazer tudo isso por R$15 por mês assinando o Spotify. O mesmo também se aplica a filmes e outros entretenimentos.

Daqui a pouco não vamos precisar comprar computadores ou até mesmo videogames, a tendência é o surgimento de jogos na nuvem, sendo possível ter um videogame com um catálogo gigantesco de jogos pagando apenas uma mensalidade. Também já é possível alugar carros para usá-los conforme sua necessidade, pagando uma mensalidade ou o uso.

Com a popularização da economia compartilhada, surge a modalidade de consumo compartilhado, que é um consumo de “tiro curto”. Você não precisa mais possuir aqueles bens, eles estão lá e você utiliza de acordo com a sua vontade, pagando o uso ou uma mensalidade fixa. Existem startups como a Tem Açúcar? Onde é possível pegar coisas emprestadas e devolvê-las após o uso. Ou seja, ao invés de comprar uma furadeira, você pega emprestado e evita acumular coisas sem uso em casa.

O vídeo abaixo mostra um pouco mais sobre a economia compartilhada e como ela está mudando a forma de interação social. A questão é que ela pode trazer consequências irreversíveis para a nossa economia baseada em consumo.

Menos consumismo

Com a expansão e a popularização da economia compartilhada na sociedade, a tendência é a redução do consumismo e endividamento. Para se locomover com conforto não é necessário se endividar em 48 prestações para comprar um carro, é bem mais atrativo utilizar serviços de carona compartilhada para isso.

Diante disso, o governo perde parte do seu poder para “fazer a economia crescer”, normalmente ele faz isso através de uma redução na taxa de juros e liberando crédito para que as pessoas possam consumir. Com maior consumo da sociedade, o PIB “cresce” e o governo pode utilizar como propaganda política.

Atualmente estamos em uma fase de transição e maturação desse novo mercado. Se você acha que isso é algum tipo de “hype” ou utopia, é bom olhar para o progresso de adoção de tecnologias que nem nos imaginávamos utilizando, como Internet e e-mail. As novas gerações tornarão mais fácil o processo de transição, a razão para afirmar isso é o comportamento dos “millennials” em relação a esse novo conceito de economia [2].

O PIB é uma ilusão econômica

A principal métrica para medir o crescimento econômico é o PIB. Ele é calculado através da soma monetária do consumo, investimento, gastos do governo e saldo da balança comercial. Segundo essa equação, um aumento do consumo na sociedade ou dos gastos do governo farão a economia crescer. Os jornalistas sempre ficam felizes de anunciar que o PIB de um país cresceu x% ao ano, toda população também fica empolgada, a verdade é que isso pode ser enganoso na maioria das vezes.

A China cresceu mais de 7% nos últimos anos, no entanto, o número de cidades fantasmas chinesas aumentou junto com esse suposto crescimento. Os chineses, em 3 anos, consumiram mais cimento do que os Estados Unidos durante o século 20 [1]. Mesmo que ninguém more nessas cidades e elas se tornem ruínas futuramente, analisando o PIB, será afirmado que a economia chinesa cresceu nesses anos de expansão urbana.

Se fôssemos considerar o PIB como um indicador confiável de crescimento de uma economia, poderíamos afirmar que as duas guerras mundiais foram excelentes. Afinal, inúmeros países foram destruídos e precisaram ser reconstruídos em seguida, logo, entram nessa equação do PIB: consumo, gastos do governo e investimentos. A economia dos Estados Unidos teve um “crescimento” acima dos 10% durante o período da segunda guerra mundial.

pib americano na economia entre guerras
Produto Interno Bruno americano durante a Segunda Guerra

Ainda há outro lado falho do PIB: estímulo ao consumismo. Os governos podem se utilizar de artifícios como manipulação de taxa de juros e crédito para “aquecer” a economia. Se isso é feito em excesso, resulta em graves crises econômicas como em 2008 nos Estados Unidos e em 2014 no Brasil, onde as economias cresceram com base no consumo.

Os gastos pessoais em bens duráveis (casa ou carro por exemplo) passaram de US$ 800 milhões em 2002 para mais de US$1,1 bilhão, um aumento de quase 50% em 5 anos. No gráfico abaixo é possível visualizar o cenário de uma forma mais completa.

bens duráveis economia americana
Gastos em consumos de bens duráveis – Fonte: FRED

O gráfico abaixo demonstra a produtividade do trabalho na economia. Enquanto o consumo de bens duráveis quase que dobrava nos Estados Unidos, a produtividade apresentava seguidas quedas com o passar dos anos. Ou seja, a economia americana não cresceu com base em aumento de poupança e produtividade, pelo contrário, cresceu baseada em consumismo e endividamento.

produtividade do trabalho na economia americana
Produtividade do trabalho nos Estados Unidos – Fonte: FRED

Veja abaixo o gráfico da poupança dos americanos. Desde 2002 ela apresentou quedas e nenhuma evolução, ou seja, esses dados comprovam a argumentação do post: crescimento econômico não se dá simplesmente pelo consumo, investimento e gastos do governo. Uma nação se torna mais rica através do crescimento da poupança e do aumento da produtividade real. Se a população está consumindo por consumir, o país se torna apenas mais endividado.

poupança na economia americana
Taxa de Poupança Pessoal nos Estados Unidos – Fonte: FRED

 

Quebra de paradigma

Quando a ordem passa a ser “compartilhar” ao invés de “comprar”, há uma quebra em um padrão que vem sendo praticado há décadas em nossa economia. A prática da economia compartilhada pode nos tornar menos consumistas e mais responsáveis financeiramente, aumentando a riqueza da sociedade no futuro, além de causar menos impactos ambientais.

Com uma maior disseminação do novo padrão de consumo, as indústrias predominantes podem sofrer profundos impactos em suas cadeias produtivas. A tendência do futuro é o surgimento de novas indústrias e outros padrões de consumo que podem radicalizar ainda mais a economia compartilhada. E isso é muito bom.

https://cointimes.com.br/economia-compartilhada-e-o-futuro-e-ele-ja-chegou/

Referências:

[1] – https://www.tecmundo.com.br/engenharia/75349-bill-gates-china-usou-concreto-3-anos-eua-em-seculo.htm

[2] – https://www.emarketer.com/Article/No-One-More-Sharing-Economy-than-Millennials/1015886

[3] – https://fred.stlouisfed.org/ para os gráficos.

Este tipo de conteúdo é relevante para você ou alguma pessoa que você conhece? Se for, siga e compartilhe a página do Cointimes e se mantenha sempre atualizado no mercado – FacebookTwitterInstagram.