Texto feito em co-autoria com Rafael Lemos.

Nos anos de 2017 e 2018, a quantidade de exchanges de bitcoin e criptomoedas cresceu de maneira exponencial. Provavelmente motivados por conta do FOMO (fear of missing out), muitos empreendedores viram no modelo de negócios das exchanges uma oportunidade de ingressar neste mercado promissor. O aumento da concorrência das exchanges no Brasil é boa?

De que forma esse crescimento da quantidade de exchanges pode impactar positivamente o desenvolvimento do cenário brasileiro? E de que forma isto pode atrapalhar?

Pontos positivos da concorrência de Exchanges

A concorrência é mais do que tudo, o motor do desenvolvimento da nossa sociedade. Quando mais empresas concorrem dentro de um mercado, ele se torna mais propenso à inovação e melhoria. Os serviços no geral se desenvolvem rapidamente e se tornam cada vez melhores com o passar do tempo. Quando não há intervenção governamental, a velocidade do desenvolvimento é mais rápido ainda.

É clara a melhoria das exchanges brasileiras de criptomoedas de dois anos para cá. As plataformas que temos aqui se tornaram mais robustas, o atendimento fornecido por essas plataformas está bem melhor. Além disso, apareceram novas ferramentas, inovações e as taxas médias cobradas pelas exchanges caiu. Negociar criptomoedas no Brasil ficou muito mais fácil e barato.

No entanto, será que no mercado das exchanges brasileiras, esse modelo será sustentável a longo prazo? Haverá demanda suficiente para o surgimento de 5 exchanges novas por mês?

O mercado de exchanges aqui no Brasil pode ser considerado o mais próximo de concorrência perfeita que encontramos. 

Concorrência quase perfeita

As características deste tipo de mercado são:

  • Muitos compradores e vendedores – Tanto existentes quanto potenciais. Sendo assim, nenhum participante consegue influenciar o preço de mercado atuando de maneira isolada. No caso do mercado de exchanges, nenhuma delas isoladamente consegue “manipular” o preço das taxas definido no mercado.
  • Produtos e serviços homogêneos – Do ponto de vista dos consumidores, os produtos e serviços oferecido pelas empresas daquela indústria são iguais.
  • Entrada e saída livre – Esta é uma das principais condições para haver um mercado de concorrência perfeita, e também um dos requisitos mais difíceis de serem cumpridos. Por enquanto a entrada e saída das exchanges brasileiras é livre, já que é um mercado sem regulamentação.

O mercado de concorrência perfeita é também conhecido por ser aquele que maximiza o bem-estar geral da economia. Isto é, maximiza o bem-estar dos produtores e consumidores, minimizando o “peso morto” do mercado.

No mercado de concorrência perfeita, o excedente do consumidor e do produtor é maximizado. Com intervenção do Estado, o preço sobe, os excedentes caem e haveria perda líquida de bem-estar (peso morto).

Isso acontece no mercado de concorrência perfeita porque há disputa por parte dos produtores pela demanda dos consumidores. Consequentemente, as empresas disputam para oferecer o melhor produto e serviço possível ao consumidor, o que é excelente para todos os consumidores, mas nem tão saudável para as empresas.

Pontos negativos da concorrência de Exchanges

Apesar dos motivos positivos listados, um aumento de concorrência desenfreado pode causar fricções que desencadeiam em péssimas consequências temporárias para o nosso mercado. O produto de exchange é homogêneo, ou seja, não há maior diferenças entre uma exchange ou outra no mercado.

Acontece que quando surgem dezenas de novas exchanges, o bolo fica cada vez mais fatiado, porque essas exchanges geralmente não trazem volume consigo. Conforme elas se tornam eficientes, mais clientes são conquistados. Desta forma, ocorre uma pulverização no volume das exchanges nacionais. Ou seja, um grande número de exchanges com volumes baixos.

A pulverização de volume faz com que a receita das exchanges diminua no geral. Porque a competição estimula um menor nível de taxas, o que diminui a receita das exchanges. Além disso, elas se tornam pouco atrativas para trade, aumentando o êxodo de volume nacional para exchanges internacionais, que são mais atrativas por conta do volume e menores taxas.

Diante de um mercado mais competitivo e cada vez menos lucrativo, as exchanges que desejam continuar no mercado têm apenas duas opções: conquistar um novo segmento de clientes com novos produtos ou reduzir o seu custo médio para aumentar a margem de lucro.

Muitas exchanges que começaram a operação recentemente não terão caixa o suficiente para continuar operando no prejuízo durante a retração do mercado. O que provavelmente vai acontecer será a saída de pelo menos 80% do mercado no longo prazo, ficando apenas aquelas que conseguiram um bom caixa para se manter, ou que inovaram para reduzir os custos médios e que conseguiram atrair novos clientes para aumentar a receita.

O problema é que isso gera um círculo vicioso difícil de ser quebrado. Conforme aumenta a pulverização do volume, as exchanges nacionais se tornam menos atrativas para trade e arbitragem. Isso faz com que a receita delas caia, uma queda na receita faz com que as exchanges tenham de diminuir o custo médio, o que prejudica o desenvolvimento de inovações e produtos, piorando ainda mais o mercado nacional.

Esse ciclo pode ser quebrado com um novo rally no preço do Bitcoin, aumentando a quantidade de novos investidores, parcerias com investidores institucionais ou alguma inovação que reduza substancialmente os custos médios. No mais, a tendência é que só os mais eficientes se manterão no mercado no longo prazo.

Base do argumento

Baseio meus argumentos utilizando a boa e velha microeconomia aprendida durante a faculdade de economia, principalmente nos livros do Varian. Sua formalização matemática foi elaborada a partir de observações de eventos na vida real e de um raciocínio lógico. A próxima parte desse texto demonstra a formalização matemática, se você não tem interesse, pode pular essa parte.

O lucro total é igual a receita total subtraindo os custos totais. A receita total é o preço do produto vezes a quantidade produzida. Ou seja, a equação de lucro total pode ser definida da seguinte forma:

concorrência perfeita
Equação de Lucros Totais no modelo de concorrência perfeita.

Dividindo a receita total pelo total de quantidade produzido, chegamos à receita média, que é igual ao preço. 

Equação de Receita Médias no modelo de concorrência perfeita.
Equação de Receita Média no modelo de concorrência perfeita.

Para chegarmos à receita ganha a partir da produção de cada produto, é preciso derivar a receita total em relação à q. Assim chegamos na receita marginal, que é o quanto uma empresa ganha produzindo uma unidade a mais.

receita marginal
Equação de Receita Marginal no modelo de concorrência perfeita.

Ou seja, na concorrência perfeita, a receita média das empresas é igual ao preço de mercado.

gráfico de concorrência perfeita

Para maximizar o lucro, a exchange “escolhe” a produção que maximiza a diferença entre a receita total e o custo total. Nesse volume de produção ótimo, o custo marginal é igual à receita marginal.

concorrência perfeita
Receita Marginal = Custo Marginal

Até ano passado, as exchanges brasileiras operavam com um bom nível de receita por conta da menor competição, taxas mais altas, maior volume e maior preço do Bitcoin. Isso fez com que as que começaram no mercado conseguissem uma boa margem de lucro.

concorrência perfeita
Lucro no modelo de Concorrência Perfeita

No entanto, com o aumento de novos entrantes, queda do preço do Bitcoin e volume num modo geral, a receita marginal diminuiu, reduzindo igualmente o preço de mercado. Se o custo médio é maior que as receitas marginais, as empresas do mercado passam a operar no prejuízo. As empresas podem continuar operando no prejuízo no curto prazo mas poucas conseguem manter o prejuízo por tanto tempo.

concorrência perfeita
Prejuízo no modelo de concorrência perfeita.

Contudo, as exchanges não podem escolher o quanto produzir. Isso tudo depende de quantos clientes elas conseguem atrair. A concorrência pode ser boa para os consumidores, mas é um pouco dolorosa para as empresas competidores. No entanto, fico com o ponto de vista Schumpeteriano sobre a destruição criadora. A “destruição” de produtos antigos que nos leva a produtos inovadores.

Referências:

Microeconomia – Uma Abordagem Moderna – 9ª Ed. 2015 – Hal Varian

Este tipo de conteúdo é relevante para você ou alguma pessoa que você conhece? Se for, siga e compartilhe a página do Cointimes e se mantenha sempre atualizado no mercado – FacebookTwitterInstagram.