Como dar credibilidade a uma moeda sem a segurança de um lastro?” – Me perguntou um amigo há um tempo atrás quando conversávamos sobre possibilidades de investimentos ao alcance de pessoa física e jurídica. Entendi naquele momento que uma pequena parcela de investidores ou possíveis investidores entendem realmente onde estão aplicando seu dinheiro e quais as consequências dessas aplicações.

Para entender este contexto precisaremos de algumas informações como base de conhecimento, começando pelo dinheiro.

O que é lastro?

Olhe no seu bolso, bolsa, carteira ou conta bancária. Se tiver alguma cédula de qualquer que seja a moeda, cifra, cartão de crédito, talvez um um talão de cheques, significa que eles de alguma forma podem ser usados para adquirir bens ou serviços.

Esse poder de compra só existe porque há alguma garantia por trás desses itens que os valida e permite que sejam aceitos como pagamento. A garantia é o chamado “lastro” e é sobre essa relação de moeda e garantia que falaremos neste artigo.

De forma prática, dinheiro é um marcador de valor. Tal valor não está no papel, mas sim na promessa de que seja trocado por bens e serviços. É então mais como uma ideia do que um bem de valor propriamente dito, já que a história revela que até couro já foi utilizado como “dinheiro”.

Nos dicionários encontramos algumas definições de lastro como: “qualquer matéria pesada que se coloca no fundo de uma embarcação para dar-lhe equilíbrio” ou “sacos de areia que se alijam gradativamente de um balão (‘aeróstato’) em ascensão”  ou ainda “uma base sólida que legitima ou autoriza alguma coisa” e, por fim mas não menos importante, “depósito em ouro que serve de garantia ao papel-moeda.”

Lastro é a garantia IMPLÍCITA de um ativo, por exemplo os títulos dados como garantia de uma operação no mercado aberto. Podemos citar uma operação de crédito bancário, onde o banco pede uma certa quantia “em dinheiro” ao cliente como garantia à inadimplência (carro, escritura de uma casa, empresa etc).

Em resumo, lastro é algo que serve como base sólida e garantida de algum outro bem, e que assegura o seu valor. O petróleo, por exemplo, tem seu lastro na exploração. O dinheiro impresso que já fora lastreado em ouro  – conhecido “Padrão Ouro” – hoje tem seu lastro em uma série de ativos relacionados às riquezas de um país, ou simplesmente na confiança depositada ao governo (moedas fiduciárias).

Padrão ouro

Passando rapidamente pelo padrão ouro, uma nota de 50 só tinha esse valor porque era lastreado em ouro, ou seja, ela representava uma quantia nas reservas de ouro de um país, uma espécie de vale ouro. Em 1971, com o fim do Acordo de Bretton Woods e um acordo de proteção dos EUA à Arábia Saudita e OPEP (detentores da maior quantidade de petróleo no mundo na época), foi definido  que o petróleo só seria vendido em dólar e só o dólar compraria petróleo, criando então o petrodólar. Sendo o petróleo o “ouro negro” e o mundo inteiro precisando de petróleo, o lastro do dólar passou a ser este então, ao invés do ouro.

Para ver um pouco mais da história do dinheiro, você pode conferir o post “A história do dinheiro” e ouvir o podcast do Conexão Satoshi que discute se o Bitcoin é ou não considerado uma moeda.

https://cointimes.com.br/podcasts/conexao-satoshi-03-o-senhor-das-moedas-a-sociedade-do-bitcoin/

E o Bitcoin, tem lastro?

Não, não tem.

Muitos dizem que, de certa forma, o bitcoin tem seu lastro no custo operacional com mineração, energia, ar condicionado etc. No entanto essas são variáveis subjetivas. Além disso, com o desenvolvimento de hardware específicos para essa finalidade o custo tem diminuído bastante e com o tempo os chamados “halving” (processo de diminuição do valor de recompensa aos mineradores) farão com que o investimento em equipamentos tão caros e sofisticados fiquem financeiramente inviáveis dando lugar a máquinas de menor custo.

Se não tem lastro então é bolha?

Também não, pois a bolha de crédito é uma distorção causada no mercado pela impressão de dinheiro sem a garantia do lastro, ou seja, se deliberadamente um país imprimir mais dinheiro sem que haja algo assegurando esse valor. O resultado será uma bolha inflacionária onde o dinheiro passa a valer menos por haver em grande quantidade e perde também seu poder de compra.

Já o bitcoin é limitado a 21 milhões de unidades, o que impede a criação de moedas de forma descontrolada e sem garantias gerando hiperinflações. Novos blocos a serem minerados são gerados a cada 10 minutos assegurando sua veracidade e atualizando constantemente essas informações. Tudo é registrado mundialmente em um sistema de Blockchain pública que permite a conferência dos dados por qualquer pessoa.

O que é inflação?

Se existe um certo “lastro” no bitcoin, esse seria sua tecnologia. É a confiança em seu modelo matemático, alto poder de criptografia descentralizada de dados, transparência e rastreabilidade que garantem ao usuário o controle de sua vida financeira sem a necessidade de um intermediário.

O mundo muda mesmo o tempo todo, e com ele também a forma como pagamos por bens e serviços. Passamos pelo couro, grãos, metais, papéis, cartões de crédito e agora uma nova era digital. O bitcoin é uma das tantas mudanças que enfrentaremos nos próximos anos.

Fica aqui um questionamento:

Cada vez mais se sabe o que anda acontecendo com o dinheiro e mais autonomia é reclamada ao indivíduo sobre o que é ou não fruto do seu trabalho. Se o homem conquistou lua, criou máquinas para facilitar a vida, tornou-a mais produtiva e aproximou as pessoas conectando-as a milhões de outras alcançando novos horizontes em termos de comunicação, não estaria na hora de mudarmos também nossa visão sobre o que é e como utilizar o nosso dinheiro?

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