São Paulo — Wed, February 11, 2026
O mercado de criptoativos entra nesta quarta-feira sob um paradoxo típico de ciclos macro: enquanto o preço do bitcoin segue pressionado e testa zonas técnicas relevantes, o “encanamento” institucional — ETFs e discussões regulatórias sobre stablecoins — volta a ganhar tração. No pano de fundo, governos e supervisores na Ásia e nos EUA aceleram regras que podem redesenhar o fluxo de capital para o setor.
ETFs de Bitcoin voltam a registrar entradas líquidas
Nos Estados Unidos, os ETFs spot de bitcoin voltaram a apresentar entradas líquidas, um sinal de que parte do capital institucional permanece ativa apesar da correção do BTC desde o pico de 2025. A imprensa especializada registrou retomada de fluxos, com destaque para dias consecutivos de captação em fevereiro.[1]
Levantamentos de fluxo também apontaram entrada líquida diária na sessão de 10 de fevereiro, com destaque para ARKB (Ark/21Shares) e FBTC (Fidelity), em um contexto de maior seletividade por parte de investidores profissionais.[2]
Por que isso importa: fluxo de ETF tende a funcionar como termômetro de apetite a risco “regulado” (compliance, custódia e reporte). Em períodos de incerteza macro, esse canal pode amortecer saídas do mercado à vista e reduzir a volatilidade intradiária — ainda que não impeça quedas quando o choque vem de juros/dólar ou aversão global a risco.
Bitcoin pressionado: mercado espera dados macro e busca “piso”
Do lado de preços, análises técnicas apontam que o BTC segue em tendência de baixa no curto prazo, com investidores atentos a suportes e a potenciais gatilhos macroeconômicos (como dados de emprego e inflação nos EUA) para recalibrar expectativas sobre juros e liquidez global.[3] [4]
Leitura de contexto: o mercado de cripto continua altamente sensível ao ciclo de condições financeiras. Quando a perspectiva de juros mais altos por mais tempo se fortalece, a rotação para ativos de menor risco costuma reduzir alavancagem e diminuir o interesse em posições direcionais — o que se manifesta em menor “fôlego” de ralis e maior exigência de catalisadores para reversão.
Stablecoins no centro do debate: EUA travam disputa sobre “yield”
Nos EUA, a regulação de stablecoins avança em paralelo a um impasse político-econômico: bancos e empresas cripto seguem em disputa sobre regras para remuneração (yield) associada a stablecoins. Reportagem da Reuters destacou que reuniões na Casa Branca evidenciaram o conflito e a dificuldade de destravar um consenso legislativo.[5]
Ao mesmo tempo, a NCUA (National Credit Union Administration) publicou uma proposta de regra para orientar como cooperativas de crédito poderiam solicitar autorização para atuar como permitted payment stablecoin issuers dentro do arcabouço do GENIUS Act (com prazo de comentários públicos até abril). O movimento é relevante por sinalizar como reguladores pretendem operacionalizar requisitos e prazos do novo marco.[6]
Por que isso importa: o “yield” em stablecoins toca no coração do modelo de intermediação financeira. Para bancos, a preocupação é perda de depósitos e competição por margens; para plataformas cripto, a tese é eficiência e repasse de retorno de reservas aos usuários. O desenho final da regra pode influenciar (i) adoção de stablecoins em pagamentos, (ii) migração de liquidez entre bancos e fintechs e (iii) o ritmo de tokenização de ativos tradicionais.
Hong Kong acelera licenças e mira stablecoins “com uso no mundo real”
Na Ásia, Hong Kong reforçou sua estratégia de se posicionar como hub regulado de ativos digitais. Em discurso no Consensus Hong Kong 2026, o secretário de Finanças Paul Chan afirmou que a cidade está finalizando detalhes de um novo regime de licenças para dealers de ativos digitais e provedores de custódia, com objetivo de enviar proposta legislativa no verão local (meio do ano). Ele também reiterou a perspectiva de emissão de licenças para emissores de stablecoins, após a criação do arcabouço em 2025.[7]
Na mesma linha, a comunicação oficial do governo local reforçou o foco em fortalecer regras e atrair inovação com ênfase em gerenciamento de riscos — uma mensagem calibrada para fundos e empresas que buscam previsibilidade regulatória.[8]
Leitura geopolítica: a corrida por estruturas de stablecoins e custódia não é apenas fintech; é competição por infraestrutura financeira. Jurisdições que conseguirem combinar (i) supervisão robusta, (ii) clareza tributária e (iii) integração bancária tendem a capturar listagens, empregos qualificados e, sobretudo, o fluxo de capital do “meio do caminho” entre TradFi e Web3.
Coreia do Sul: fiscalização se intensifica após erro da Bithumb
Na Coreia do Sul, a autoridade de supervisão financeira ampliou o escrutínio sobre grandes exchanges depois de um episódio envolvendo a Bithumb, que levantou questionamentos sobre controles internos e registros de custódia. Veículos locais reportaram intensificação de inspeções e expansão do olhar regulatório para o setor.[9]
Por que isso importa: em mercados onde exchanges têm alta participação no varejo, incidentes operacionais costumam virar gatilho para (i) exigências mais duras de prova de reservas, (ii) regras de segregação de ativos e (iii) padrões de auditoria mais próximos do sistema bancário. No curto prazo, isso pode elevar custos de compliance; no médio prazo, tende a reduzir risco sistêmico e a aumentar a confiança do usuário.
Ethereum mira validação por provas (ZK) e tenta reduzir barreiras para validadores
No front de tecnologia, o Ethereum discute uma mudança arquitetural relevante: a proposta EIP-8025, que busca permitir validação opcional por provas de execução (zero-knowledge), reduzindo a necessidade de reexecução completa por validadores — com potencial para baixar o custo de operação de nós e tornar a participação mais acessível.[10] O tema faz parte das discussões do roteiro L1-zkEVM 2026 na comunidade técnica.[11]
Leitura de mercado: mesmo em fases de correção, atualizações que endereçam escalabilidade e descentralização influenciam a percepção de “capacidade de longo prazo” da rede — especialmente quando a competição entre L1/L2 e a tokenização de ativos (RWA) entram na pauta de grandes instituições.
O que acompanhar nas próximas horas
- Fluxos dos ETFs: continuidade (ou reversão) das entradas líquidas e concentração por emissor.
- Agenda macro: dados dos EUA e seu efeito sobre dólar, juros e apetite a risco.
- Stablecoins: avanço regulatório (GENIUS Act) e se a Casa Branca consegue reduzir o atrito entre bancos e cripto.
- Ásia: implementação prática do modelo de licenças em Hong Kong e o endurecimento de fiscalização na Coreia do Sul.
Nota editorial: este texto tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.
Fontes
- CoinDesk — U.S. bitcoin ETFs registram entradas em sequência
- KuCoin News (flash) — entrada líquida reportada em 10/fev
- Kitco — alerta diário do gráfico do bitcoin (11/fev)
- DailyForex — sinal técnico BTC/USD (11/fev)
- Reuters — impasse sobre legislação cripto e recompensas em stablecoins
- NCUA (.gov) — proposta de regra para emissores de payment stablecoins
- Governo de Hong Kong (info.gov.hk) — discurso do secretário de Finanças no Consensus HK 2026
- news.gov.hk — diretrizes do governo para regulação de ativos digitais
- The Korea Herald — watchdog amplia supervisão após glitch
- AMBCrypto — EIP-8025 e validação por provas (ZK)
- Ethereum Magicians — L1-zkEVM roadmap 2026