O Santander, banco conhecido por fechar unilateralmente contas bancárias de corretoras de bitcoin, em resposta a um questionário do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) justificou suas atitudes citando matérias sobre lavagem de dinheiro com bitcoin. Mas a explicação não faz sentido, veja o porquê.

De acordo com documento publicado na noite de ontem (14) no inquérito administrativo do CADE para apurar conduta anticoncorrencial dos bancos e mediadores de pagamentos brasileiros contra corretoras de bitcoin e criptmoedas, o Santander citou matérias sobre o uso criminoso do bitcoin no Brasil para justificar o fechamento de contas.

“Além dos inúmeros exemplos trazidos pelo Santander ao longo da presente investigação, destacamos abaixo alguns novos exemplos de notícias publicadas, que reforçam a necessidade de vigilância desde o início e ao longo do relacionamento com clientes pertencentes a esse segmento:”, declarou o Santander que citou as seguintes matérias:

“O Santander destaca novamente que, a justificativa de desinteresse comercial está em linha com o disposto na Lei 01 9.613/1998 (“Lei de Lavagem de Capitais”) e com a Circular n2 3.461/2009 do BACEN”

, afirmou o banco espanhol.

Dinheiro citado passou pelos bancos

Entretanto, o Santander esquece de mencionar que o dinheiro sujo que chegou nas exchanges de bitcoin teve que, necessariamente, passar por instituições bancárias. Cada real depositado em qualquer corretora de bitcoin passa por contas bancárias que deveriam aplicar processos contra lavagem de dinheiro e corrupção.

Contudo, segundo o MPF no âmbito da operação Lava Jato,  o Santander e os 4 maiores bancos brasileiros são acusados de viabilizarem a transferência de R$1,4 bilhões que serviriam de propina para funcionários públicos.

“O que está em apuração é se o banco adotou todas as cautelas devidas para evitar que funcionários fossem cooptados e valores fossem lavados ou se ele foi omisso”

, disse o procurador da República Roberson Pozzobon, integrante da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba.

Mas não é só no Brasil que o Santander tem problemas. Em 2017, sete executivos do banco foram acusados de lavagem de dinheiro pela justiça espanhola. 

Banco investiu em concorrentes indiretos?

No mesmo questionário, o inquérito pergunta se a empresa, ou o grupo econômico Santander faz parte, possui participações acionárias diretas ou indiretas em corretoras de criptoativos. O banco pediu confidencialidade na resposta, todavia, sabemos que o grupo trabalha com empresas de criptoativos.

Uma delas é a Ripple, responsável pela moeda XRP e por prover serviços de sistema de pagamentos e exchange de moedas com o serviço XRapid.

“O Innoventures, fundo de capital empreendedor de US$ 200 milhões do Grupo Santander, investiu na Ripple em 2015.”

afirmou o Santander em nota do lançamento do serviço One Pay FX.

 A One Pay Fx é uma inovação do Santander que o usa o blockchain da Ripple/XRP para fazer pagamentos entre diferentes jurisdições usando os serviços da RippleNet.

“One Pay FX, é o primeiro serviço de transferência internacional baseado em blockchain na Espanha, Reino Unido, Brasil, Polônia, Chile e Portugal”

afirma o Santander em sua página oficial.

Mesmo assim, o banco afirma que não existe “um racional de prejudicar as empresas, tendo em vista que não há relação de concorrência entre as atividades do Santander e a corretagem de criptoativos.”