Análise on-chain mostra que exchanges descentralizadas (DEXs) ultrapassaram as plataformas centralizadas de trade em volume e traça a diferença de perfil entre os usuários.

Ascensão das exchanges descentralizadas

Nos últimos cinco anos, as exchanges descentralizadas (DEXs) surgiram como uma maneira programática e auto-custodial para os investidores de criptomoedas negociarem seus ativos.

DEXs permitem que os usuários façam trocas entre centenas de pares de negociação sem nenhum intermediário – e quinze meses atrás, essas plataformas descentralizadas superaram pela primeira vez as exchanges centralizadas (CEXs) em volume de transações on-chain.

Este relatório é baseado no report publicado pela Chainalysis e tem o objetivo de entender o que levou a este comportamento de superação, o que isso realmente significa e o que podemos esperar nos próximos anos.

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Volume on-chain DEXs vs CEXs

Apesar de seu surgimento ter ocorrido há cinco anos, o volume de transações on-chain continuou sendo dominado pela exchanges centralizadas, até um pequeno desvio no final de 2020 e em um crescimento mais acelerado e significativo na metade de 2021, durante o momento de maior atividade do mercado cripto e das finanças descentralizadas (DeFi).

Volume de transações on-chain em exchanges descentralizadas vs centralizadas
Volume de transações on-chain em exchanges descentralizadas vs centralizadas

Antes de continuarmos, é importante deixar claro que este relatório mede apenas o volume financeiro on-chain. O que significa que ele não leva em consideração todo o volume de negociação dentro das CEXs que ocorrem em rede privada, não rastreável, em seus livros de ofertas.

O volume de uma exchange centralizada é medido apenas com a entrada ou saída de capital/ativos das carteiras conhecidas destas empresas – enquanto uma DEX tem seu volume total de negociação sempre realizado em blockchain e, portanto, mensurável neste estudo.

Segundo publicação da Chainalysis, de abril de 2021 a abril de 2022, US $175 bilhões foram movimentados on-chain por CEXs, enquanto as DEXs transacionaram US $224 bilhões no mesmo período.

Correlação com atividade e ciclos de mercado

Foi percebido que o volume de ambos os tipos de plataformas está diretamente relacionado com os ciclos de mercado, indicando que em um mercado de alta (bull market), o volume de negociação aumenta, bem como a frequência de saques e depósitos nas exchanges centralizadas.

Um mercado de alta tem um impacto muito maior no ecossistema DeFi e nas exchanges descentralizadas, como observado pelo pico no gráfico anterior e comparado com a capitalização total do mercado de criptomoedas nesses mesmos 12 meses.

Gráfico mostrando evolução de capital de abril a abril de todo o mercado cripto.
CRYPTOCAP TOTAL 1D Heiken Ashi – Fonte: Tradingview

Mas como a regra da maior volatilidade vale tanto para um mercado de alta como de baixa, as DEXs se mostraram também mais afetadas, apresentando maior queda de volume on-chain durante a fase negativa deste ciclo de mercado, perdendo bastante expressão durante a baixa (bear market).

Porcentagem de volume distribuído entre as plataformas de trade

No gráfico abaixo conseguimos observar claramente a dominância de volume on-chain entre os dois tipos de plataformas, sendo que no pico de desempenho do mercado, em 2021, as exchanges descentralizadas viram completamente o jogo, assumindo mais de 75% de todas as transações.

Porcentagem de volume de transações on-chain em exchanges descentralizadas vs centralizadas
Porcentagem de volume de transações on-chain em exchanges descentralizadas vs centralizadas

Ao filtrar o volume concentrado entre as 5 maiores DEXs contra as 5 maiores CEXs, o resultado é parecido, mas observamos uma maior concentração no top 5 das exchanges descentralizadas, indicando também uma menor pulverização no ecossistema DeFi e menor competição entre as plataformas.

Porcentagem do volume de transações concentrado no top cinco serviços por tipo de exchange
Porcentagem do volume de transações concentrado no top cinco serviços por tipo de exchange

Os cinco principais serviços descentralizados são responsáveis por cerca de 85% de todo o volume de transações em DEXs durante o período estudado. Isso inclui Uniswap (UNI), SushiSwap (SUSHI), Curve (CRV), dYdX e o protocolo 0x. Todos majoritariamente em Ethereum (ETH).

Uma das explicações é ainda a imaturidade do mercado, fazendo com que poucas plataformas tenham tido a oportunidade de se estabelecer durante a ascensão das exchanges descentralizadas – isso poderia mudar com o tempo caso fosse o único motivo, mas não parece ser o caso.

Economia de escala favorece o domínio dos maiores

A outra tese muito plausível para este efeito de dominância, é explicado pela economia de escala que é criada nestes ecossistemas financeiros, onde:

  1. As maiores DEXs em volume geram mais taxas de negociação – que é distribuída entre os fornecedores de liquidez (liquidity providers);
  2. Mais taxas geram melhor rendimento para os investidores que fornecem liquidez – incentivando que cada vez mais liquidez seja fornecida;
  3. Pools com melhor liquidez oferecem maior estabilidade de preço e menos slippage durante as negociações – incentivando que os usuários utilizem as maiores DEXs vs as menores;
  4. Mais usuários utilizando uma determinada plataforma, gera mais volume de negociaçãovoltando ao (1), em efeito que escala com o tempo.

Rentabilidade sobre o volume nas exchanges descentralizadas 

Muitas DEXs no estilo de automated market maker (AMM) são executadas em pools de liquidez – criptomoedas armazenadas em contratos inteligentes que suportam pares de negociação. Esses pares, como ETH⇆USDC e USDT⇆DAI, permitem que os usuários troquem entre quase qualquer criptomoeda a um preço justo e sem intermediários.

Os usuários que financiam essas pools descentralizadas no estilo AMM são conhecidos como fornecedores de liquidez ou LPs. Em troca de preencher as pools com seus próprios ativos, os LPs coletam taxas de transação em qualquer negociação que use sua liquidez.

Qual a rentabilidade dos LPs? A Chainalysis mediu as taxas de transação coletadas pelos provedores de liquidez de token ERC-20 nas cinco principais DEXs.

Taxas recebidas por fornecedores de liquidez ERC-20 nas top cinco DEXs
Taxas recebidas por fornecedores de liquidez ERC-20 nas top cinco DEXs

Mensalmente, os ganhos através das taxas de negociação variaram entre US $50 e US $150 milhões. O que representa uma pequena fração (0,05% a 0,3%) dos US $50 a US $300 bilhões que foram movimentados nas exchanges descentralizadas durante o mesmo período. A recente desaceleração afetou ambos os elementos igualmente, pois menos transações significam menos oportunidades de cobrança de taxas.

Diferença no perfil do usuário de CEX vs DEX

A diferença no perfil e comportamento de um usuário CEX e um usuário DEX também é notável quando levado em consideração dados on-chain.

Exposição do perfil de usuários enviando ETH para CEXs vs DEXs
Exposição do perfil de usuários enviando ETH para CEXs vs DEXs

No gráfico acima vemos a comparação de diferentes perfis, através da origem de fundos enviados para CEXs e DEXs.

Por exemplo, não existe muita diferença de envio originado em DEXs, mas fundos que saem de uma exchange centralizada, vão 16% das vezes para uma outra exchange centralizada, com menos da metade sendo direcionada para o ecossistema DeFi – em exchanges descentralizadas.

Parte deste fenômeno pode ser explicado porque um usuário DEX está muito mais preocupado com sua privacidade e auto-soberania dos fundos, que são ambos prejudicados em um ambiente centralizado.

Também vemos uma preferência extrema dos mineradores de Ethereum ao enviar fundos para CEXs. Demonstrando que este perfil está pouco interessado em manter os fundos recebidos com a inflação proveniente da recompensa de mineração no ecossistema DeFi, preferindo enviar os fundos para plataformas onde eles conseguem mais facilmente transformar os ativos recebidos em moedas fiduciárias para realizar o lucro desta forma e, talvez, cobrir os custos decorrentes da mineração.

O que esperar nos próximos anos sobre o ambiente DeFi?

As plataformas, que normalmente rodam em softwares de código aberto, estão melhorando com o tempo. Com as melhorias e soluções de escalabilidade sendo apresentadas pela indústria blockchain e de finanças descentralizadas (defi), os usuários e investidores também conseguem uma maior eficiência e melhor experiência ao interagir com as exchanges descentralizadas.

O maior peso regulatório sobre as CEXs também deve influenciar em menor competitividade, aumento de taxas e maior dificuldade de interação nestes ecossistemas centralizados.

Com a educação sobre o mercado cripto melhorando com o tempo e mais pessoas percebendo a importância de maior privacidade e auto-soberania (auto-custódia), é possível ver esta tendência de dominância das DEXs se mantendo nos próximos anos, mas isso vai depender da qualidade das soluções que sairão ao mercado.

O crescimento e a maior procura por Organizações Autônomas Descentralizadas (DAOs) que oferecem aos detentores de tokens de governança a possibilidade de participar ativamente nas decisões dos protocolos também devem colaborar com esta ascensão.

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