Descentralização não precisa ser um monstro de sete cabeças – ou três.

O conceito de descentralização às vezes pode parecer confuso e isso é devido à complexidade que muitas vezes envolve o tema e a falta de clareza sobre a definição de descentralização, ou dos pontos avaliados.

Este artigo tem o objetivo de abordar a definição conceitual de descentralização, explicar sua importância para a indústria das criptomoedas e te ajudar a entender o que é descentralização no nosso sistema de uma vez por todas.

O que é descentralização?

Palavras difíceis? Não se assuste. Vamos falar melhor sobre cada uma delas, começando com a definição de descentralização, tanto como um conceito amplo, como focado para o universo cripto.

Definição ampla sobre descentralização

A descentralização caracteriza-se quando um poder, antes absoluto, passa a ser repartido.

É a ação de afastar algo de um centro, normalmente utilizada para o “poder de decisão”, então neste caso, quando uma única pessoa ou grupo detém um poder, ele é centralizado. A repartição do poder entre outras pessoas e grupos, com igual peso é o que classifica um sistema descentralizado.

Trazendo para nossa realidade financeira, o sistema monetário do Brasil é centralizado, pois o Banco Central exerce poder absoluto sobre as decisões e atividades monetárias.

Saiba mais: Descubra de quanto é a inflação real da moeda brasileira; e como isso nos afeta

Descentralização é diferente de desconcentração

Descentralização é diferente de desconcentração ou distribuição (guarde essa informação que será útil mais para frente).

A desconcentração é um procedimento interno de um sistema centralizado, significando, apenas, a substituição de um órgão interno do sistema, por dois ou mais. Na desconcentração, o serviço era centralizado e continuou centralizado, pois ainda existe um poder central que controla as atividades delegadas aos subalternos.

Infográfico representando uma hierarquia centralizada, mas desconcentrada, com diversas pessoas em uma "árvore gráfica" ligadas à uma pessoa no topo.

Voltando ao nosso exemplo do Banco Central, que centraliza o sistema monetário brasileiro, por mais que existam múltiplos departamentos dentro desta autarquia, que dividem a tomada de decisão para melhorar o processo interno, o sistema monetário poderia ser visto como desconcentrado, mas não descentralizado.

Democracia, democracia representativa e monarquia

A definição de descentralização é absoluta. Ou algo é descentralizado, ou é centralizado.

Mas mesmo a definição sendo absoluta, dentro da descentralização podem existir diferentes “níveis” ou “graus” de descentralização. Onde um determinado sistema pode ser mais ou menos descentralizado que outro sistema.

Um outro exemplo muito claro de descentralização está nas ciências políticas e na forma de governo de um país ou região.

Uma monarquia é uma forma de governo centralizada, que pode ser desconcentrada a partir de delegações e vassalagem, mas ainda centralizada, pois o rei detém poder absoluto sobre o país.

Vassalo prestando respeito à um rei na sala do trono

Na democracia representativa, o poder é descentralizado, pois não existe poder absoluto dos representantes eleitos, mas ainda é uma descentralização frágil, pois existem incentivos para que os representantes conspirem (to collude) para manipular o consenso e centralizar o poder em um grupo ao qual eles fazem parte.

Apesar de, por definição, ser uma forma de governo descentralizado, o grau de descentralização é muito baixo (poucas pessoas detém o poder) e ainda existem muito incentivos para que ele retorne à um estado de centralização caso as pessoas que detém o poder se juntem em um grupo único com interesse em comum. E normalmente é o que ocorre em alguns países.

Isso vale para ilustrar que a descentralização não é um estado definitivo, mas ela flutua, aumentando ou diminuindo e ficando mais forte ou mais fraca. Podendo retornar a um sistema centralizado na falta de resistência em uma direção contrária.

Aliás, a própria “representatividade”, que é a eleição de líderes, já é uma forma de diminuir a descentralização de um sistema político “democrático, sem-líder”. Onde todos os participantes do sistema participam ativamente do consenso nas decisões.

Então este tipo de democracia seria mais descentralizado que um sistema onde alguns participantes conspiram (to collude) para eleger um líder, que por sua vez é mais descentralizado que sistemas onde os próprios líderes estejam conspirando entre si.

Descentralização para as criptomoedas

A mesma regra se aplica para as criptomoedas, onde existem diferentes níveis e graus de descentralização.

E qualquer rede pode aumentar ou diminuir sua descentralização, bem como corre o risco de alcançar um estado de centralização. Sendo algumas mais frágeis que outras nesse sentido.

Mas por que a descentralização é importante?

Quando o Bitcoin (BTC) foi criado, existia uma demanda por solucionar o problema de escassez digital de forma definitiva.

Em um sistema digital centralizado, pode haver escassez digital temporária, mas como a tomada de decisão é mantida por uma instituição central, ela pode, em teoria, alterar as regras do sistema para benefício próprio.

Com o advento da blockchain permissionless (que qualquer um pode participar, sem a necessidade de autorização), Satoshi Nakamoto conseguiu encontrar a solução que só é possível em um sistema descentralizado, exatamente para evitar a tomada de decisão com segundas intenções, que não a do funcionamento honesto da rede.

Quanto mais descentralizado um sistema ‘permissionless’, mais sólido e seguro ele é.

Quanto menos descentralizado, mais frágil, menos seguro e mais vulnerável à uma tomada de decisão desonesta que prejudica as outras pontas do sistema peer-to-peer.

Um sistema descentralizado precisa alcançar consenso entre os participantes

Quando um sistema opta pela descentralização, ele sempre estará abrindo mão da eficiência, que poderia ser maior em um sistema centralizado.

Isso ocorre porque junto com a descentralização, vem a necessidade de alcançar o consenso entre os participantes sobre as decisões que estão sendo tomadas. E o consenso exige mais esforço e recursos do sistema, diminuindo a eficiência.

Pensem por exemplo na diferença entre a monarquia e uma democracia baseada em assembléias, onde é preciso decidir pela reforma de uma rodovia, bem como o limite orçamentário e as pessoas responsáveis pela obra.

Na monarquia o rei tomará sua decisão, podendo ou não ser aconselhado, mas ele só precisa decidir e dar a ordem. Eficiência.

Na democracia por assembléia, os participantes terão que se reunir em uma ou várias reuniões, com pessoas gritando, interrompendo umas às outras, defendendo interesses próprios, indicando pessoas conhecidas, com diferentes opiniões prioritárias e orçamentárias sobre a reforma, bem como o método de realização.

Eles precisam chegar em um consenso.

Em um sistema central, o consenso precisa apenas de um participante.

Quanto mais descentralizado, maior o número de participantes envolvidos no consenso e maior a dificuldade de alcançar esse consenso.

Mas, ao mesmo tempo, também é teoricamente mais difícil que o consenso seja atingido para algum propósito desonesto com os participantes.

A eficiência e a segurança não dependem apenas do nível de descentralização do consenso, mas ela pode ser influenciada, por exemplo, pela forma como este consenso é atingido. Diferentes protocolos de consenso podem ter resultados diferentes de eficiência e segurança com o mesmo grau de descentralização.

Evitando o gasto duplo e outros problemas decorrentes da centralização

Gasto duplo é, de forma bem simplificada, quando algum participante gasta “a mesma moeda” duas vezes.

Em comparação com o real, por exemplo, seria como gerar notas falsas tirando cópias de uma verdadeira e gastar aquele valor diversas vezes com pessoas e lugares diferentes. Na blockchain isso só é possível quando o participante detém maioria no consenso e é capaz de alterar a rede de blocos válidos, enganando os demais participantes (nodes).

Tom Hanks no filme “Prenda-me se for capaz” analisando um cheque falso
Tom Hanks no filme “Prenda-me se for capaz” analisando um cheque falso

Entenda melhor: Pool de mineração da Monero próxima a 51% de hashrate; e agora?

Subsistemas da descentralização

Quando vamos avaliar se um sistema é centralizado, pouco descentralizado ou muito descentralizado, é preciso avaliar separadamente cada subsistema que compõe este sistema mais amplo.

Na nossa democracia, por exemplo, podemos afirmar que ela é um sistema descentralizado que possui 3 subsistemas: (1) Executivo, (2) Legislativo e (3) Judiciário.

Dentro destes 3 subsistemas, o executivo é o menos descentralizado, pois é baseado em uma única pessoa (o presidente), apesar de ser desconcentrado – através dos ministérios.

O legislativo é mais descentralizado, pois ele é composto por centenas de pessoas que representam milhões de outras pessoas, apesar de ser uma descentralização frágil pelo incentivo da criação de grupos de interesses que podem conspirar entre si para aprovar medidas de interesse próprio (partidos e bancadas).

O judiciário tem um nível de descentralização intermediária, composto pelos ministros do Supremo Tribunal Federal.

Apesar de tudo isso, o sistema presidencialista como um todo é ainda menos descentralizado que um sistema parlamentarista, pois existe uma diferenciação no peso de importância dos subsistemas, onde, no presidencialista o subsistema de mais peso é o de menor descentralização – o executivo.

Nos projetos de blockchain e na indústria das criptomoedas nós também temos diferentes subsistemas de descentralização que exercem menor ou maior importância no sistema como um todo de cada projeto. Além de protocolos diferentes, que oferecem diferentes graus de eficiência e segurança para a mesma descentralização.

Descentralização no consenso

Para a maioria dos projetos existentes, o subsistema de maior peso é o subsistema de consenso, apesar de não ser uma regra.

Então normalmente quando se está discutindo descentralização, se está na verdade discutindo a descentralização no consenso, pois é o subsistema com maior possibilidade de ataque e com os efeitos mais devastadores para uma grande parte dos projetos. Veja, por exemplo, o caso da Monero (XMR).

Para sistemas que utilizam a Prova de Trabalho (PoW) como método de consenso, a descentralização é medida pela quantidade de trabalho gerada por cada participante (hashrate), já que blocos válidos são definidos pela chain com maior trabalho e os nodes que querem obedecer o protocolo precisam seguir este consenso.

Em alguns casos específicos, onde existe uma fragilidade no consenso e um potencial participante desonesto dominando este subsistema, os nodes e os outros participantes podem “desobedecer” o protocolo para manter a rede honesta, excluindo o atacante.

Mas o próprio ato de desobedecer o protocolo enfraquece o sistema como um todo e não é o ideal, precisando ser evitado através de um monitoramento constante do nível de descentralização que varia com o tempo.

Existem outros métodos de consenso com seus exemplos, como:

Cada um deles possui suas forças e fraquezas; e incentivos e desincentivos à descentralização. Além de diferentes protocolos e resultados.

Outros subsistemas importantes para medir a descentralização de um projeto

Apesar do consenso – normalmente – ser o mais importante, também existem outros subsistemas que possuem sua própria importância na avaliação de um projeto blockchain, ou de um sistema descentralizado como um todo.

Distribuição de informação. É a forma como toda a informação da rede é distribuída e armazenada. Normalmente realizada através dos nodes (nós) na rede, que são servidores de computador privados com seu próprio registro das transações (ledger) realizadas e validadas pela rede.

Este subsistema é extremamente importante, pois após atingir o consenso de quais transações são válidas, é preciso manter o registro seguro, pois é ele quem ajuda as decisões de consenso seguintes serem tomadas. Por exemplo, armazenando a chain com maior trabalho envolvido em uma PoW, ou a origem de um bloco da conta gênesis em um ORV.

O número de nodes nem sempre significa que uma rede é mais descentralizada, apesar de muitas pessoas se confundirem aqui e essa afirmação parecer contra-intuitiva.

Uma rede pode ter 1.000 nodes e apenas 3 participantes, onde 1 deles detém 400 nodes e os outros dois 300 nodes cada.

E ela será menos descentralizada do que uma rede com apenas 10 nodes, todos de participantes diferentes e, ainda mais descentralizada caso estes participantes não estejam relacionados entre si.

A rede de 1.000 nodes do exemplo é melhor distribuída, possui maior desconcentração (menos concentrada), mas uma pior descentralização.

Desenvolvimento e governança. Este é outro subsistema de descentralização muito relevante. Avaliar quantas pessoas ou instituições podem colaborar com o desenvolvimento do projeto (ser de código aberto é vital nesta indústria) e qual a liberdade que elas possuem de fazer propostas e aceitar modificações.

Geopolítica. Existem alguns sistemas, principalmente os que precisam de mineração que são mais afetados pelo subsistema de geopolítica, por terem uma necessidade física mais significativa, já que o consenso é baseado em grandes complexos computacionais cuja descentralização é influenciada pelo consumo de recursos e geração de hash (hashrate). Mas todos acabam sendo afetados por uma maior ou menor descentralização geopolítica, que está ligada às regiões, países e leis que podem ajudar ou prejudicar a rede e o sistema como um todo.

No caso do Bitcoin, por exemplo, cada país que proíbe a mineração causa uma diminuição do número de regiões onde é possível minerar BTC, diminuindo a descentralização neste subsistema.

Como medir a descentralização em cada subsistema

Existem diversas formas de medir a descentralização, mas a mais utilizada pela indústria é o Coeficiente de Nakamoto (NC), que mede quantas instituições são minimamente necessárias para conspirar contra a rede e centralizar a tomada de decisão. Sempre sendo o menor número possível.

Por exemplo, no caso de uma análise sobre o subsistema de geopolítica no Bitcoin, NC pode ser igual ao número de países no mundo, menos número de países que proíbem a mineração.

O Coeficiente de Nakamoto não é definitivo e ele varia de acordo com as mudanças que acontecem na rede e no mundo.

No caso do subsistema de consenso, temos alguns exemplos interessantes, com os seguintes NCs no momento da redação deste artigo.

Bitcoin (BTC): Consenso é atingido com 51% da hashrate, tendo NC = 4 com Foundry USA (16,7%), F2Pool (15,1%), AntPool (12,7%) e Poolin (11,5%).

Gráfico em pizza mostrando hashrate de algumas pools de bitcoin

Monero (XMR): Consenso é atingido com 51% da hashrate, tendo NC = 2, com MineXMR (40,13%) e nanopool (21,34%). Foi isso que causou o alerta da comunidade, já que a MineXMR começou a ganhar muito poder no consenso em um curto espaço de tempo, ameaçando atingir NC = 1.

Lista de pools de mineração da Monero com a porcentagem de hashrate.

Nano (XNO): Consenso é atingido com 67% do poder de votos, tendo NC = 12, de acordo com o nanocharts.info.

Gráfico em pizza com as porcentagens do poder de voto no consenso da Nano.

Além do consenso de nakamoto, também é preciso avaliar quão sólido é o estado de descentralização do subsistema.

O que significaria quão volátil pode ser o NC nesse caso e quais os incentivos para que ele melhore ou piore gradualmente com o tempo, além de nunca avaliar apenas um subsistema, mas pesquisar sobre cada um deles, seus próprios coeficientes e tentar estabelecer pesos de importância para o sistema como um todo.

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