No cenário das criptomoedas nem todos os projetos têm a mesma ambição. Apesar de usarmos com frequência o termo “moeda”, são poucos que possuem como objetivo substituir o dinheiro que usamos no dia a dia.

E não me entenda mal: criar um software que funcione como dinheiro, com todas as características necessárias, não é nada fácil. Hoje explicarei uma das propriedades essenciais do dinheiro, que é a fungibilidade.

Em economia, fungibilidade se refere à permutabilidade entre bens. Em termos mais simples, significa que uma unidade de um certo bem deve ter o mesmo valor que uma outra unidade idêntica. Um exemplo seria o Real: uma nota de R$ 10,00 tem garantia por lei de sempre valer R$ 10,00, independente de como você adquiriu essa nota.

O Real é considerado uma moeda fungível. Outras commodities fungíveis incluem o petróleo bruto, ações de uma empresa, metais preciosos como ouro e prata, entre outros.

Por incrível que pareça, a maior parte dos projetos de criptomoedas não possuem as características necessárias para serem fungíveis. Uma das poucas exceções é o Monero.

https://cointimes.com.br/avaliacao-de-criptomoedas-monero/

O Bitcoin não tem fungibilidade?

Um dos pontos fortes do Bitcoin também é o seu calcanhar de Aquiles: o fato de seu blockchain ser totalmente transparente possibilita a inclusão de certas moedas em uma “lista negra”. As maiores corretoras internacionais utilizam softwares de análise de blockchain para identificar se o Bitcoin depositado possui algum passado obscuro (e.g. usado em comércio de drogas ou em hacks).

Se o resultado da análise mostrar que a moeda já foi utilizada de maneira ilegal, a corretora tem responsabilidade judicial de não aceitar o depósito. E essa não é somente uma prática de corretoras, gateways de pagamento como o BitPay também utilizam listas negras impedindo certas moedas de serem utilizadas na plataforma.

Isso faz com que existam Bitcoin “marcados”, e que por estarem em uma lista negra são negociados em um valor abaixo do mercado. O efeito contrário também é real: existe um mercado de nicho que vende Bitcoin recém-minado por um preço premium, exatamente por ele não ter nenhum histórico registrado no blockchain.

Monero e seus três pilares pró-fungibilidade

O Monero é um projeto conhecido por defender fortemente o direito à privacidade dos usuários do protocolo. Diferente do Bitcoin, o blockchain do Monero é opaco – remetentes, destinatários e os valores de cada transação são completamente ofuscados, e qualquer entidade que estiver observando o blockchain não será capaz de rastrear o histórico das transações.

Sem entrar em muitos detalhes técnicos, o Monero utiliza três tecnologias que o diferencia do Bitcoin. As mesmas tecnologias que fazem do Monero a principal moeda com foco em privacidade também lhe dão a propriedade de fungibilidade.

  1. Assinaturas em anel (ring signatures): técnica que ofusca o remetente da transação. Cada transação que você efetua no protocolo Monero é assinada pela sua chave privada e outras 6 chaves falsas escolhidas pela rede. Somente você e o destinatário sabem qual assinatura é válida.
  2. Endereços ocultos (stealth addresses): essa técnica ofusca o destinatário da transação. Ao receber uma transação, o protocolo automaticamente gera um endereço de recebimento único, que nunca se repete. Isso significa que o seu endereço público nunca aparece no blockchain.
  3. Transações confidenciais em anel (ring confidential transactions): essa técnica ofusca o valor da transação através do algoritmo criptográfico Pedersen Commitments.

É importante notar que essas três tecnologias são mandatórias do protocolo. Outras moedas pró-privacidade como o Zcash possuem privacidade opcional, o que não impede as empresas de análise de blockchain de observarem as transações. Isso faz com que o Monero seja possivelmente a única criptomoeda fungível no cenário atual.

https://cointimes.com.br/analise-monero-pode-valorizar-18-000-diz-satis-group/

Por que o Bitcoin não adota essas tecnologias?

Cada projeto escolhe cautelosamente suas batalhas e seus sacrifícios. O Monero optou por proteger a identidade dos usuários e sua propriedade fungível, mas isso tem um custo: transações pesadas (em bytes), o que se traduz em taxas mais caras se comparadas ao Bitcoin.

A equipe de desenvolvedores e pequisadores do projeto reconhecem esse efeito colateral e estão constantemente estudando alternativas para deixar as transações mais leves. Um exemplo é a utilização do protocolo Bulletproofs que será implementado em Outubro deste ano. Essa técnica de compressão reduzirá as taxas atuais do Monero em aproximadamente 80%.

Outro motivo pelo qual o Bitcoin não adota imediatamente essas tecnologias é devido ao que chamamos de “contrato social”. O protocolo foi criado de forma transparente para permitir que todos os usuários possam ver e comprovar publicamente todas as transações. Existem centenas de bots que rastream grandes transações de carteiras milionárias, incluindo a carteira do próprio Satoshi Nakamoto que é pública. Todos podem ver o saldo de todos e verificar suas transações. Implementar tecnologias que ofuscam as transações e valores de forma definitiva quebraria o atual contrato social do Bitcoin.

Ainda é muito cedo para vermos em grande escala os verdadeiros impactos da falta de fungibilidade. Porém, um aviso: é preciso tomar cuidado com as regulamentações para que não vire moda a ideia de colocar endereços em “listas negras”.

Se há algo que não precisamos no cenário de criptomoedas são governos tentando controlar o fluxo de capital.

Quer receber mais notícias sobre investimentos, finanças e educação financeira? Se inscreva no canal do Cointimes no Telegram, é só acessar https://t.me/newscointimes.  Se mantenha atualizado também pelo – FacebookTwitterInstagram.