Em Setembro de 2021, El Salvador tornou oficialmente o Bitcoin (BTC) uma moeda de curso legal no país junto ao dólar.

De acordo com a “lei do Bitcoin” os cidadãos do país poderiam pagar impostos em BTC (artigo 4) e realizar atividades econômicas como venda de produtos e serviços nele.

A lei também impõe obrigações como ter que expressar preços na unidade BTC (artigo 3) e todo agente econômico ser obrigado a aceitar a criptomoeda (artigo 7).

Como forma de facilitar a adoção da moeda no país, o governo realizou uma campanha educacional para ensinar a população a usar o Bitcoin, mais especificamente a Chivo Wallet, uma carteira 100% custodial que aparentemente funciona através da infraestrutura em blockchain Algorand. Ela pode ser usada para fazer transferências em BTC ou LN BTC (Lightning Network), bem como em dólares também.

Uma outra ação feita pelo governo de El Salvador para estimular a adoção e uso do Bitcoin no país foi um período de “bônus por primeiro uso” onde usuários que baixaram a Chivo Wallet receberam $30 dólares na carteira onde poderiam gastar essa quantia com o que quisessem. Além disso, o governo também deu descontos em postos de combustível que variaram entre 0,2 a 0,3 dólares por galão para quem pagasse utilizando Bitcoin ou Chivo Wallet.

Já se passaram mais de oito meses desde que o Bitcoin se tornou uma moeda de curso legal em El Salvador, então naturalmente uma pergunta emerge: como vem sendo a sua adoção no país de lá para cá?

Se você quer respostas terá que ir atrás delas…

No final de Abril deste ano, o Departamento Nacional de Pesquisa Econômica (NBER) publicou um estudo intitulado: “As criptomoedas são moedas? Bitcoin como moeda de curso legal em El Salvador”.

O objetivo do paper, de acordo com os pesquisadores, foi de  “[..] estudar o potencial de uma criptomoeda se tornar um meio de troca”.

Segundo eles,  El Salvador oferece uma oportunidade única para investigar um fenômeno amplamente debatido no mundo atualmente, entretanto, há pouquíssimos dados além daqueles disponibilizados pelo governo ou pelo presidente Nayib Bukele em seu Twitter.

Devido a isso, os pesquisadores tiveram que conduzir uma pesquisa cara-a-cara em forma de entrevista onde contaram com a participação de 1800 domicílios do país em questão. 

Antes de prosseguir, um aviso

A quantidade de dados coletados pelos pesquisadores nas entrevistas foi muito grande e isso possibilitou um estudo muito rico em informações dos mais variados tipos.

Para deixar este artigo menos denso, selecionei aqueles mais pertinentes para fazer uma análise pessoal do fenômeno e poder responder à pergunta que foi indagada no título do próprio. Caso você queira saber todo o escopo do estudo, o paper está linkado e pode ser lido aqui.

Os resultados do estudo

Um dos levantamentos sobre a população de El Salvador que precisa ser mencionado primeiro é quanto ao sistema financeiro do país.

Mais de 50% da população realiza transações através de dinheiro físico (cédulas e moedas). 70% não possuem contas bancárias, isto é, se enquadram na situação de “unbanked” e 90% não utilizam aplicativos bancários mesmo dentre os 30% que possuem uma conta com algum banco.

Uso de dinheiro físico e inclusão financeira em El Salvador

Quanto a Chivo Wallet, há muitos dados interessantes. O motivo mais importante que fez as pessoas baixarem a carteira foi o bônus de $30 dólares que recebiam (78%), seguido pela possibilidade de fazerem pagamentos sem contato e fazerem remessas (prática muito comum entre pessoas que imigraram de países subdesenvolvidos para ajudar suas famílias).

Enquete: "Por que você baixou a Chivo?"

A maioria que baixou a carteira usou o bônus em algum momento para pagar algo em Bitcoin. Cerca de 20% delas não usaram o bônus ganho curiosamente. Esse dado em específico pode ser atribuído pelo fato de que elas só poderiam sacar ele para dólares caso primeiro enviasse a quantia para uma outra carteira ou também por problemas que essa parcela da população pode ter enfrentado usando ela como veremos mais para frente.

Enquete: "Uso principal do bônus de $30"

Mais de 60% dos entrevistados não utilizaram a Chivo Wallet depois de terem gasto o seu bônus.

Quantos usam Chivo após gastar o bônus de $30?

Além disso, mais de 57% não fizeram saques da Chivo em caixas eletrônicos (ATM’s) e a vasta maioria não depositou mais dinheiro nela além dos $30 dólares que recebeu.

Um fator que pode ter contribuído para as pessoas não fazerem saques para dólar são as altas taxas que pagavam. Os caixas cobravam cerca de 5-20% por saque e a média ficava em 8,5%.

Saques de ATM de bitcoin e recargas na Chivo Wallet além do bônus de $30

Dos que não baixaram a Chivo Wallet (21,32% de acordo com a pesquisa), o principal motivo foi que eles preferiam usar dinheiro físico, o que corrobora com o dado de mais de 50% das transações serem feitas nele.

Os motivos seguintes são por não confiarem no sistema, não confiarem no Bitcoin, não terem celulares com internet e acharem a tecnologia complicada.

Motivos para não baixar a Chivo

Quando questionados sobre o porquê de não usarem o Bitcoin, a principal resposta foi por não conseguirem entender ele, seguido de “outros fatores”, não confiarem nele, não ser aceito em negócios (curiosamente como veremos em outro gráfico), volatilidade e por fim altas taxas.

Motivos para não usar o Bitcoin

Mais de 35% dos entrevistados disseram ter tido problemas com a Chivo. Os principais problemas reportados foram, nesta sequência: Técnicos, impedidos de acessar o app, problemas para enviar e receber fundos, roubo de identidade, dinheiro perdido e etc.

Problemas em usar a Chivo? Quais?

Aproximadamente, 90% das empresas em El Salvador aceitam dinheiro físico. 25% delas aceitam cartões de crédito ou débito e o mais interessante, apenas 20% aceitam Bitcoin apesar de a lei obrigar todo agente econômico a aceitar BTC quando requisitado.

Quantos estabelecimentos aceitam dinheiro físico, cartões e bitcoin?

Para finalizarmos com os últimos dados que quero mostrar, 71% das empresas que fazem vendas em Bitcoin trocam ele por dólares e depois fazem um saque em papel moeda. 17% delas converte ele para dólares mas deixam eles em bancos ou na Chivo wallet e apenas 12% mantém o valor recebido em Bitcoin.

O que você fez com o recebimento de bitcoin?

Conclusões do estudo pelos pesquisadores

De acordo com pesquisadores do NBER, os principais fatores que fizeram o Bitcoin não ter tido o sucesso esperado em El Salvador são: 

  • Alta competitividade entre os métodos de pagamento disponíveis; 
  • Há muitas condições para o uso da criptomoeda; 
  • A estratégia de implementação poderia ter sido melhor e o custo para essa adoção é alto, cerca de 0,7% da renda anual per capita.

O redator deste artigo, porém, discorda em partes da conclusão simplificada e não muito elaborada do estudo.

Uma análise pessoal com base no estudo do NBER

Na opinião do redator deste artigo, o Bitcoin fracassou em El Salvador. A causa maior sendo a imposição feita pelo governo à sua população para adotá-lo às pressas da noite para o dia.

Para entender como essa adoção forçada teve um impacto negativo, vamos primeiro olhar o incentivo que o governo deu, o bônus da Chivo Wallet.

O GDP per capita anual de El Salvador foi de $3,798 dólares em 2020, de acordo com o The World Bank. Logo, o GDP per capita mensal seria aproximadamente $316 dólares. O bônus de $30 USD dado pelo governo é cerca de 9,5% desse valor mensal. Portanto, já temos uma teoria do porquê o motivo principal de os usuários terem baixado a Chivo Wallet ter sido justamente ele. É uma quantia muito significativa para a população e um dado que reforça esse argumento é que o número de pessoas vivendo na linha da pobreza ou menos ($5,5 USD) em El Salvador foi de 22,8% em 2019.

Esse “estímulo” isolado do governo é suficiente para ter causado um efeito contrário no médio prazo ao que se esperava para a adoção do Bitcoin no país. A vasta maioria das pessoas não começaram a adotar ele porque viram na tecnologia uma solução para o seus problemas ou uma oportunidade de já estarem à frente com uma possível revolução no sistema bancário mundial, elas aceitaram ele para reduzir momentaneamente parte das suas dificuldades de viver no país que está na 124ª posição do ranking de IDH (Brasil – 84ª). Sem mais bônus recorrentes é natural que a adoção tenha decaído rapidamente.

É claro que os problemas não acabam aí. Um segundo grande motivo que fez o Bitcoin fracassar no país foi a quantidade de problemas que muitos usuários enfrentaram e continuam enfrentando. Conforme o número de reclamações aumentava, como por exemplo (citado no estudo) transações falhando e pessoas sendo impedidas de usar suas carteiras, mais desestimulados eles ficaram em usar a moeda principalmente quando comparavam a experiência de uso dela (UX) com a de outros meios de pagamento como o próprio dinheiro físico ou mais ainda, cartões de crédito e débito.

Tudo isso somado a uma desconfiança prévia que muitos em El Salvador já tinham do Bitcoin só fez com que enxergassem ele cada vez mais como algo ruim que precisava ser evitado, ou no mínimo como uma tecnologia desnecessária para o país.

Aumentando essa desconfiança, o próprio Bitcoin não funcionou e não funciona como reserva de valor para sequer justificar o seu acúmulo pela população ou até mesmo pelo próprio governo de El Salvador. No momento da escrita deste artigo, o BTC já perdeu metade do poder de compra desde o momento onde o seu preço atingiu a máxima histórica, em novembro. Todos os salvadorenhos que mantiveram suas reservas no BTC dessa época para agora perderam metade do seu patrimônio como também o próprio governo. Sabe-se que as reservas de El Salvador são 1.801 unidades de Bitcoin. A perda total já ultrapassou os -21,91%, ou seja, o próprio país está perdendo a sua riqueza acumulada graças a essas reservas que obviamente foram adquiridas através de impostos da população.

O dado mais importante que reforça esse argumento é o de que 71% dos negócios convertem pagamentos em Bitcoin para dólares e depois fazem o saque deles em dinheiro e 17% convertem em dólares e mantém eles na Chivo Wallet ou em um banco tradicional, ou seja, 88% não mantém suas reservas financeiras na criptomoeda mas sim na moeda fiduciária americana pois ela (apesar de estar rumando para um colapso) é bem menos volátil.

O que o experimento em El Salvador pode nos ensinar?

É importante ressaltar que apesar de o Bitcoin ter fracassado no país, isso serve como um grande aprendizado para futuras tentativas de pequena, média ou até mesmo adoção de larga escala de criptomoedas. Das lições que podemos tirar de lá temos:

  • Governos não devem forçar a adoção delas. Qualquer tentativa disso deverá ser visto como algo negativo. A tendência é ocorrer uma centralização do dinheiro descentralizado nas mãos deles, o que consequentemente abre um leque de possibilidades para aqueles com agendas de poder ou enriquecimento pessoal;
  • As criptomoedas são ferramentas para soluções de problemas e não as próprias soluções em si, ou seja, apesar de elas terem nascido com o objetivo de substituir a ordem bancária mundial, a realização disso irá variar conforme a realidade de cada local no mundo. Portanto, uma adoção voluntária direcionada por pessoas que entendem o contexto que vivem é muito mais eficiente e sustentável no longo prazo;
  • Nem toda moeda funciona como dinheiro. As moedas que tiverem a melhor experiência de uso como meio de troca são candidatas mais favoráveis e infelizmente o Bitcoin (BTC) não é uma delas na minha opinião. Boa parte dos problemas enfrentados em El Salvador continuariam ocorrendo em uma adoção “pura” da moeda, como por exemplo altas taxas ou falhas de transação na Lightning Network;
  • Baixa volatilidade é essencial para incentivar o acúmulo de moedas e consequentemente estimular o uso delas na economia. Locais onde a pobreza ou desigualdade são altas acabam sendo os mais vulneráveis quando ocorre uma variação de 10%, 20%, 50% ou mais no preço de uma criptomoeda.

Vale a pena mencionar que já existem exemplos de adoção voluntária generalizada e curiosamente, em países também relativamente pobres como El Salvador. Você pode conferir um desses casos de sucesso neste outro artigo sobre a adoção de Bitcoin Cash (BCH) na ilha de São Cristóvão e Névis.

Sobre o autor

Moses (@MrMoses1911) é um entusiasta das criptomoedas desde 2012 quando conheceu o Bitcoin e se considera um “cripto agnóstico” e agorista. Ele possui interesse em moedas com utilidade para diversos usos no cotidiano e naquelas que avançam o desenvolvimento da tecnologia trazendo novas possibilidades. Ele também é um crítico do Bitcoin (BTC) no qual acredita ser uma “moeda Judas” ou “cavalo de tróia” das criptomoedas pois foi corrompida por entidades poderosas para atrasar e dificultar o avanço da adoção delas pelo mundo.

No momento da escrita do artigo ele não possuía nenhuma criptomoeda em seu portfólio.

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