O Prof. Dr. Rafael de Pelegrini Soares, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), concedeu uma entrevista exclusiva para o Cointimes, onde contou sobre o novo projeto que está liderando na universidade, relacionado com o desenvolvimento de blockchains e fomento à descentralização.

Dispensa de licitação para financiamento privado na UFRGS

Na redação do Cointimes, conseguimos contato com o responsável pelo projeto após encontrar o EXTRATO DE DISPENSA DE LICITAÇÃO Nº 25/2022 – UASG 153114, publicado no Diário Oficial da União, no dia 04 de abril de 2022.

Captura de tela do extrato de dispensa de licitação número 25/2022 para a UFRGS, conforme descrito na matéria.
Fonte: Diário Oficial da União

Conforme explicado pelo próprio líder do projeto, a dispensa de licitação é uma formalidade burocrática para permitir o financiamento de projetos internos por terceiros.

Neste caso específico, a autorização tem validade de dois anos e um valor máximo de R$ 434.184,10 que poderá ser levantado neste período para financiar: Projeto de Desenvolvimento Tecnológico na Codificação de Simuladores, Máquinas Virtuais, Rastreamento e Blockchain, sob a justificativa: “Visando ao desenvolvimento científico e à capacitação tecnológica na área de Tecnologia e Produção.”

Entenda sobre o que se trata o projeto

Após conseguir a dispensa de licitação, os trâmites internos na UFRGS também foram resolvidos, e o projeto finalmente teve início. Em uma vídeo-chamada realizada nesta quarta-feira, 18 de maio de 2022, o Prof. Dr. Rafael de Pelegrini Soares explicou do que se trata e quais seus planos para o futuro.

De forma geral, o projeto vai envolver a compra de equipamentos para a criação de um laboratório de pesquisa e desenvolvimento acadêmico que deverá selecionar um número limitado de alunos para atividade extracurricular de iniciação tecnológica, com pagamento de bolsa para os participantes em 20 horas semanais de trabalho.

Os alunos irão trabalhar no código e na infraestrutura de projetos blockchain parceiros e, no futuro, o projeto poderá se transformar em uma disciplina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Continue lendo para descobrir quais blockchains já estão no radar da UFRGS.

Quem é Rafael de Pelegrini Soares

Foto de perfil do Rafael de Pelegrini Soares

Com mais de 100 artigos publicados em revistas científicas e mais de 200 citações por ano em artigos de terceiros, segundo o Google Scholar, Rafael de Pelegrini Soares é desenvolvedor de softwares desde 2000, com um vasto currículo e conhecimento na disciplina.

Opinião sobre Bitcoin

Quando questionado sobre sua opinião sobre o Bitcoin, o professor se demonstrou um grande entusiasta da descentralização e reconhece, no BTC, uma grande força e atenção para este ponto.

Descentralização é um ponto primordial, se não não faria sentido existir.”

Afirmou o Prof. Dr. da UFRGS.

Ele disse que o Bitcoin tem seu mérito no quesito descentralização, mesmo ao considerar o alto custo de entrada de novos mineradores, que pode centralizar o consenso no decorrer do tempo.

Rafael também elogiou o método de distribuição do Bitcoin (BTC), sem pré-mineração e considera como um fator muito importante para a indústria o fato de um projeto realizar uma distribuição justa, como foi feito com o bitcoin, sem a concentração de moedas ou tokens nas mãos de poucas pessoas, permitindo com que qualquer pessoa tenha a mesma chance de participar desta distribuição em redes públicas e não-permissionadas.

Além disso acredita que todas as pessoas que querem interagir com algum projeto blockchain deveriam rodar seu próprio node, sempre buscando aumentar a descentralização.

“As blockchains são um fenômeno social, não apenas financeiro, é necessário que as pessoas acreditem naquilo para que ele exista e isso envolve que as pessoas rodem nós e participem ativamente da descentralização da rede.”

Como começou no mercado e na indústria blockchain

Ao trabalhar no meio de softwares, Rafael de Pelegrini Soares já acompanhava de longe o mercado de criptomoedas e a indústria blockchain, mas realmente começou a se envolver com o ecossistema ao conhecer proposta da SolarCoin (SLR), em 2016 ou 2017, sobre mineração com placas solares e uso de energia solar renovável.

O professor e doutor da UFRGS reforçou diversas vezes a importância que vê em projetos com foco em sustentabilidade e uso eficiente de energia elétrica. De acordo com ele, um dos grandes problemas da mineração por GPU ou ASICs está também nas toneladas de lixo eletrônico gerados todos os dias.

Rafael acredita que o lixo criado é ainda mais grave que a emissão de CO2 ou o consumo energético, apesar de receber pouca atenção da mídia e dos entusiastas.

De acordo com o Digieconomist, o lixo eletrônico anual gerado pelo Bitcoin é de 37,71 mil toneladas, o equivalente a todo lixo de equipamentos de TI da Holanda.

Imagem do Digieconomist com ícone de lixo e 37,31 mil toneladas de desperdício de equipamentos eletrônicos.

Parceria SNA e UFRGS

A Signum-Network-Association (SNA) é a associação responsável pelo desenvolvimento da blockchain de primeira camada (Layer 1) Signum, cujo token nativo é o SIGNA.

Signum é uma blockchain pública não-permissionada de desenvolvimento descentralizado e colaborativo, então a associação tem um papel semelhante ao da Linux Foundation, para o desenvolvimento do sistema operacional Linux.

A proposta da Signum é muito semelhante à do Ethereum, ao querer oferecer a base para plataformas de aplicativos descentralizados e finanças descentralizadas. Eles também possuem uma solução interessante para Tokens Não-Fungíveis (NFTs) que ocupam menos espaço de disco na ledger, no que é chamado de Green Contracts, que são contratos inteligentes sustentáveis.

A SNA será a primeira associação a financiar o projeto e deve assinar o contrato de parceria com a UFRGS muito em breve.

Ainda não sabemos o valor total do financiamento, mas Rafael de Pelegrini Soares disse que não deve completar a quantia aprovada para o projeto (de cerca de R$400 mil), o que abre espaço para que outras blockchains também sejam incluídas em um futuro próximo.

Todo o desenvolvimento obrigatoriamente será feito em OSS (Open Source Software), que pode ser monitorado por qualquer um, em projetos sob a licença GPL3.

O contrato inicial com a Signum terá duração de 1 ano e os alunos participarão ativamente da atualização e melhoria da Máquina Virtual (VM) própria da blockchain, além de desenvolvimento de código da camada base, melhorando a infraestrutura da L1 para que outros desenvolvedores consigam construir aplicativos e soluções, como Exchanges Descentralizadas (DEX), por exemplo.

De acordo com Rafael, a Signum foi escolhida para iniciar o projeto, pois cumpre com seus requisitos de descentralização de rede e distribuição justa do token, sem pré-mineração e sem concentração de recursos nas mãos de poucos, além de ser software aberto, mas eles estão abertos a colaborar com outros projetos que sigam estas mesmas premissas, além da sustentabilidade e segurança.

Quando questionado sobre o que vê para o futuro do mercado, o professor se disse otimista e empolgado, mas preocupado com projetos desonestos, que acabam manchando o ecossistema e recomenda cuidado com ativos que prometem retornos absurdos em um curto espaço de tempo.

Ele acredita que estamos vivenciando uma tecnologia muito disruptiva, mas também se preocupa com a proliferação de projetos que abrem mão da descentralização.

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