Esse texto contará um pouco sobre a história de Naji Nahas, o homem que quebrou a BVRJ com seus esquemas de manipulação.

Nem sempre a Bovespa teve o protagonismo no mercado de ações, futuros e commodities no Brasil. Durante os anos 60/70, o protagonismo era reservado à BVRJ, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, que viveu verdadeiros anos de ouro nas duas décadas.

Tudo começou a mudar nos anos 70/80, e melancolicamente, a BVRJ rapidamente perdeu seu protagonismo para a BOVESPA. A razão para isso: o seu completo crash em 1989. Falarei sobre ele ao longo desse texto.

Naji Nahas

naji nahas

Criado no Cairo e estudado em Londres, o empresário saiu de sua terra com alguns milhões no bolso, uma cortesia da família. Desembarcou no Brasil em busca de oportunidades. As encontrou no ramo de criação de coelhos e no mercado internacional de prata.

Ele já era rico, mas ganharia fama na Bolsa de Valores. Ele já chegou a ser dono de 7% da Petrobras e 12% da Vale, o que lhe garantia à época uma fortuna de US$ 500 milhões. Hoje, essa quantia corrigida o faria, facilmente, um dos homens mais ricos do mundo.

Naji Nahas fez sua jogada de mestre em 1988 através do mercado de opções na BVRJ. No qual adquiriu um caminhão de opções de compra da Petrobrás quando as ações estavam cotadas na baixa. Se você não sabe o que são opções de compra, explico.

Elas funcionam como uma aposta. Suponha que uma ação esteja cotada a R$ 70 e você acredita que ela irá subir para R$ 100. É possível pagar R$ 1 para ter a opção de comprá-la a R$ 100 daqui a 30 dias.

Caso ela esteja valendo R$ 150, você poderia comprá-la por R$ 100, que é um preço abaixo do mercado e vendê-la por R$ 150. Desta forma, cada R$ 1 gasto na opção te renderia R$ 50, um lucro de 5000%.

Mas, e se a ação estiver cortada abaixo de R$ 100? Nesse caso, você perde seu R$ 1 gasto na opção de compra, porque ela tem um prazo de vencimento.

Se você tivesse gasto R$ 10.000 nessas opções teria levado no bolso uma bagatela de R$ 500.000. Parece mentira, fraude? É difícil alguém acertar assim. Contudo, isso aconteceu várias vezes em sequência.

Sorte ou trabalho?

Foi exatamente assim que Naji Nahas ganhou uma montanha de dinheiro. Mas você acha que foi sorte? Óbvio que não! Na verdade, ele “trabalhou” bastante para isso.

Nahas comprou uma tonelada de opções de compra de ações da Petrobras, como falamos anteriormente. Feito isso, era só “trabalhar” para fazer os preços subirem, isto é, manipular o mercado ao seu favor sem que todo mundo percebesse.

Na época o mercado de ações no Brasil era muito pequeno. O volume de negociações nem se compara com o que temos hoje. Antigamente eram necessários apenas alguns milhões para manipular o mercado de ações. Hoje são necessários bilhões de reais para fazer os preços de uma ação subir momentaneamente.

Mas como ele fez as ações subirem? Oferta e demanda. Se tem mais gente comprando do que vendendo obviamente os preços vão subir. Enquanto ele comprava opções em uma ponta, ele também comprava ações na outra sem fazer muito alarde. Ele pegava empréstimos volumosos em grandes bancos e fazia outros corretores de laranja.

A genialidade dos detalhes

Quando você observa de longe, não parece ser uma jogada muito inteligente. Se estou pagando Juros para os bancos e comprando ações cada vez mais caras não parece que estou ficando no zero a zero? Por mais que pareça fazer sentido, o alto retorno no mercado de opções compensava esse “trabalho”.

Nahas, com o dinheiro dos empréstimos, foi comprando mais ações na surdina, fazendo com que elas subissem de preço rapidamente. E aí entra aquele cenário de FOMO (Medo de perder a oportunidade). Muitas pessoas viram aquela subida e passam a comprar as ações também, com medo de perder a oportunidade de ganhar muito dinheiro.

O efeito manada acabou ajudando o libanês. As ações já haviam subido mais de 400% na época quando ele exerceu a opção de compra, que lhe garantia o direito de comprar ações a um preço abaixo do mercado. Logo em seguida, revendeu as ações na mesma hora garantindo um grande lucro.

Essa jogada fez dele um homem US$ 30 milhões mais rico. Para falar a verdade, ele tinha tantas opções que o mercado não tinha o mercado não tinha ações para fazer valer o contrato.

Quem vendeu as opções para ele no começo teve que comprar as ações por US$ 40 e repassar para Nahas a US$ 20. Ele ficava com o dinheiro do lucro das opções mais as ações do mercado. Uma jogada genial.

O problema da ganância

Essa foi só a primeira rodada. Ele queria ganhar mais, esse é o principal problema da ganância. Naji Nahas fez as ações da Vale subirem mais de 1600% em 1 ano, executando o mesmo plano que havia feito com a Petrobrás.

Ele só não contava com a proibição de manipulação de mercado. Qualquer pessoa pode comprar ações e fazer os preços subirem? Pode. Mas fica difícil convencer autoridades quando a sua jogada é um esquema de manipulação comprovado.

O difícil é explicar quando suas três empresas ficam negociando entre si para fazer os preços subirem. Quando a fraude foi descoberta, o presidente da Bovespa pediu para os bancos cancelarem os empréstimos. Só que o estrago estava feito: Nahas passou milhões em cheques sem fundo para comprar as ações da Vale.

Os cheques voltaram e as corretoras que intermediaram a compra ficaram com a dívida. Como forma de reaver o prejuízo, o presidente da Bovespa decidiu confiscar US$ 500 milhões da carteira de Naji Nahas. O empresário foi processado e condenado a 1 ano por fraude financeira. Cumpriu prisão domiciliar.

Na versão de Nahas, ele afirma que foi vítima de um golpe orquestrado pela diretoria da Bovespa. O libanês diz que o então presidente da Bovespa, Eduardo Rocha Azevedo e seu grupo estavam “vendidos” e teriam orquestrado com os bancos o corte de crédito no dia 8 de junho, uma quinta-feira.

O crash

O mercado financeiro brasileiro sofreu bastante. Quando a notícia de manipulação chegou ao Jornal Nacional, o pânico tomou conta. A valorização real da bolsa havia sido de mais de 1500% na época. O maior caso de valorização acionária na história da humanidade.

Aquilo era uma grande bolha, essa valorização gerou uma corrida de novos investidores na Bolsa. Não se sabia o quanto dos 1600% de valorização da Vale haviam sido provocados por Nahas. Até empresas que não tinham nada a ver com o esquema acabaram se beneficiando da valorização.

As negociações ficaram suspensas, e quando voltaram, as ações imediatamente perderam 1/3 do seu valor. Foi uma bomba, uma corrida para vender tudo o mais rápido possível. Bem semelhante ao que foi visto na crise de 1929.

Mas se a bolsa quebrou por que o país não sofreu as consequências? A bolsa era bem incipiente, de forma a representar menos de 5% do nosso PIB. Se fosse hoje, com a bolsa representando 20%, as consequências seriam trágicas.

Desde então, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro jamais se recuperou. Além disso, perdeu todo protagonismo para a Bovespa. A Bolsa carioca jamais recuperou a credibilidade até fechar, em 2000.

Em 2007, a Terceira Turma do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), que declarou a inexistência de qualquer crime do megainvestidor Naji Nahas contra o Sistema Financeiro Nacional (Lei do Colarinho Branco).

Nahas entrou com ação judicial contra a Bolsa do Rio – hoje propriedade da paulistana Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) – e a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), pedindo indenização de 10 bilhões por danos materiais.