O misterioso criador do Bitcoin evitava ao máximo falar sobre opiniões pessoais, mas ele tinha conhecimento que seu projeto poderia esquentar o debate político.

“[O Bitcoin] É muito atraente para o ponto de vista libertário, se pudermos explicar corretamente. Contudo, sou melhor com código do que com palavras.”

Satoshi Nakamoto

Essa frase foi escrita em um email para Hal Finney em novembro de 2008, quando a criptomoeda ainda era apenas uma ideia.

No início, os principais interessados em uma moeda digital descentralizada eram os criptoanarquistas, extremamente preocupados com o direito à liberdade e privacidade, próximos da doutrina anarcocapitalista.

Então Satoshi era um libertário capitalista?

Na verdade isso não ficou tão claro assim, não é porque o Bitcoin era atraente para os libertários que o seu criador também era. Satoshi falava muito de bancos, mas não tanto de governos, então seu projeto acabou parecendo agradável a alguns socialistas também.

Porém, a sua única menção aos governos foi pensando neles como possíveis atacantes à rede:

“Os governos são bons em cortar as cabeças de redes controladas centralmente como Napster, mas redes puramente P2P como Gnutella e Tor parecem estar se mantendo.”

Um sistema P2P é também conhecido como sistema ponto-a-ponto. Basicamente, ele possibilita a transferência de qualquer dado sem a necessidade de um intermediário.

E ao inventar uma moeda que funcione dessa forma, sem pontos únicos de falha para o governo “cortar a cabeça”, Satoshi possibilitou a “utopia libertária” de ter novamente o controle sobre o próprio dinheiro.

Para quem não sabe, os primeiros meios de troca foram escolhidos consensualmente, a partir da demanda comum por bens como sal, grãos de cevada ou ouro.

Até que o governo tomou para si o papel de controlar o que as pessoas usariam como dinheiro, criando a maior fraude da história, a moeda fiduciária.

Bitcoin não tem ideologia

Em uma publicação na Fundação P2P, Satoshi explicou uma das maiores razões do porquê precisamos de uma moeda descentralizada:

“O principal problema da moeda convencional é toda a confiança necessária para fazê-la funcionar. O banco central deve ser confiável para não desvalorizar a moeda, mas o histórico das moedas fiduciárias está cheio de violações dessa confiança.

É necessário confiar nos bancos para manter nosso dinheiro e transferi-lo eletronicamente, mas eles o emprestam em ondas de bolhas de crédito com quase uma fração de reserva. Temos que confiar neles com nossa privacidade, confiar neles para não deixar que ladrões de identidade drenem nossas contas.”

Além disso, através da criptografia, o Bitcoin consegue ser um ativo ao portador, significando que quem tem a chave privada da carteira tem os bitcoins. O que pode se adequar perfeitamente aos princípios de propriedade privada que pregam os anarcocapitalistas.

Mas apesar disso, o Bitcoin é um programa de código aberto sem ideologia, e apenas indivíduos possuem esses tipos de valores.

Então, no fim das contas, como essa tecnologia será usada depende apenas dos usuários. Com amplo consenso, qualquer alteração pode ser feita no protocolo, mesmo que isso seja muito difícil.

O que sabemos com certeza é que o Bitcoin nasceu em fóruns lotados de criptoanarquistas e foi desenhado para reforçar a descentralização apoiada por criptografia.