Apenas 21 milhões de Bitcoins?

Satoshi Nakamoto sempre pensou no Bitcoin como um sistema monetário completo, capaz de ser uma alternativa ao vigente desde 1971, o do Fiat Money. A idéia de Satoshi era ter um dinheiro que funciona sem um intermediário confiável para verificar a autenticidade das moedas, como é feito hoje através da casa da moeda. Tão pouco a emissão das moedas neste sistema seria centralizada, no Bitcoin milhares de mineradores fariam o trabalho de emitir e verificar a autenticidade das moedas.

Ou seja, a emissão e autenticidade de moedas de Bitcoin é puramente competitiva, descentralizada, exatamente como ocorria no padrão ouro clássico. Existiam uma boa centena de cunhadores de moedas trabalhando em iniciativa privada, mas essa ordem de milhares de anos atrás foi subvertida quando os imperadores e reis descobriram o poder de transformar qualquer metal menos nobre em Ouro.

Muitas pessoas, honestamente, se questionam sobre a viabilidade na implementação de um sistema monetário baseado em Bitcoin. Afinal, 21 milhões de bitcoins, sendo que pelo menos 4 milhões deles já estão perdidos permanentemente, não parece ser uma oferta que será capaz de suprir a demanda global. E, realmente, olhando por esse ponto de vista, de fato é uma oferta bem limitada.

O ouro também é limitado

Por outro lado, estima-se que entre 160 mil e 180 mil de Ouro toneladas já foram mineradas desde antiguidade, apesar da dificuldade de se ter um número 100% confiável, por hora usaremos este como referência. Ou seja, pelo menos 160 milhões de quilos de ouro já foram minerados. Existem cerca de 7 bilhões de pessoas no mundo, isso quer dizer que não haveria 1kg de ouro para todas as pessoas do mundo, cada pessoa teria 2 gramas de Ouro.

Para se ter uma noção, todo ouro já minerado na história da humanidade caberia em 4 piscinas olímpicas, o que dá uma ideia da sua escassez.

O ouro também é limitado e escasso, um dia a sua mineração vai chegar ao fim. Mas nem por isso o Ouro deixou de ser a moeda vigente por milênios. É justamente na sua escassez que as pessoas confiam, porque elas querem alocar sua riqueza no tempo. As pessoas querem uma maneira de conservar sua riqueza, problema definitivamente resolvido pelo Ouro.

Não é atoa que durante o padrão ouro clássico, foi o período que a humanidade mais se desenvolveu, até o período pré-primeira guerra. Os preços da economia não subiam continuamente, como ocorre hoje. Conforme a riqueza aumentava, os preços da economia durante o padrão ouro decresciam em alguns momentos. Nos EUA, de 1800 a 1900 a inflação acumulada em 100 anos foi de -33,34%, isso significa que o seu dinheiro ganhou 33,34% de poder de compra em 100 anos! 

Com o fim do padrão ouro, a inflação acumulada de 1974 a 2018 foi de 2000%. Na Inglaterra por exemplo, se você colocar a inflação anual em um gráfico, terá o resultado abaixo.

Bitcoin como moeda alternativa

Se você se atentar ao fato de que o Bitcoin é divisível por 8 casas decimais, teríamos uma oferta muito maior de moedas. 1 Bitcoin possui 100 milhões de Satoshis, portanto, a oferta útil do Bitcoin seria de 1,7 quatrilhões de Satoshis, o que é uma quantidade de dinheiro maior do que a movimentada hoje.

Dividindo os 17 milhões de Bitcoins para 7,6 bilhões de pessoas daria aproximadamente 0,0022 Bitcoins para cada pessoa ou 220 mil satoshis – a menor unidade do bitcoin. A vantagem do Bitcoin em relação ao Ouro é a sua divisibilidade. É possível dividir 1 bitcoin em até 8 casas decimais depois da vírgula. Por outro lado, dividir 1g de ouro para 10 pessoas é algo tecnicamente muito difícil de se fazer.

Como o Satoshi é a menor unidade de Bitcoin, não haveriam centavos de Satoshis. Para isso, os comerciantes precisariam dar seus preços em termos de Finneys, que equivaleriam a 100 Satoshis. Imagine que um refrigerante custe 2,50 finneys, seria o equivalente a dizer que 250 satoshis, por exemplo.

Então, a oferta total de Bitcoin seria de 17 trilhões de Finneys, o que é bem abaixo do PIB mundial medido em Dólar, mas essa relação poderia mudar caso haja uma migração entre sistema monetários, fazendo com que toda riqueza mundial se “esprema” em 21 milhões de Bitcoins. Dessa forma, seria possível rodar um sistema monetário em um país pequeno com até 1 Bitcoin. Mas se isso não for suficiente, esse gap poderia ser preenchido por moedas complementares, assim como foi com o Ouro durante a época do Bimetalismo. Essa moeda por exemplo poderia ser o Bitcoin Cash ou Litecoin, ficando a cargo do mercado decidir.

A inflação por outro lado, seria previamente conhecida, então os preços precisariam subir no mesmo ritmo que a mineração da moeda, exceto em casos excepcionais. Isso seria excelente porque evitaria surtos inflacionários causados por governos que expandem rapidamente sua oferta monetária sem necessariamente haver crescimento econômico.

Os preços da economia tenderiam a decrescer, fazendo com que cada unidade de Bitcoin valha cada vez mais com o passar do tempo através de um maior poder de compra. O Bitcoin teria a vantagem de não poder ser confiscado, como foi com o Ouro. O fato é que as criptomoedas vieram para ficar e mudar definitivamente nossa maneira de lidar com o dinheiro.

Se o Bitcoin não fosse altamente divisível, poderíamos afirmar que sim, 21 milhões de Bitcoins não é suficiente. Mas a sua divisibilidade é capaz de tornar a moeda mais acessível para pessoas ao redor do mundo. A questão é, quando e como essa transição vai ocorrer. E aí, você vai esperar essa transição acontecer para tomar uma atitude ou vai fazer parte da vanguarda financeira?

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