O cientista e influenciador digital, Átila Iamarino, explicou sua teoria sobre “o paradoxo dos carros autônomos” e aproveitou a oportunidade para criticar o Bitcoin, mas utilizou falácias argumentativas no processo.

Eu até queria concordar com o Átila, mas não consigo e vou explicar o porquê.

Disclaimer – Premissas importantes

Para aqueles que acompanham meu conteúdo no Cointimes e nas minhas redes sociais, sabem que apesar de ser um grande entusiasta de soluções descentralizadas para uma economia digital, que surgiu com o Bitcoin, não possuo o ativo em carteira e muitas vezes sou bastante crítico em relação ao BTC.

O que acontece é que eu gosto muito dos princípios e da ideia que envolve o bitcoin: “sistema peer-to-peer de dinheiro eletrônico”, mas pessoalmente acredito que o projeto bitcoin core falha em entregar essa ideia e já existem projetos melhores, mais eficientes, mais seguros ou mais fiéis aos princípios que fizeram o BTC crescer.

Eu também enxergo um grave problema no alto consumo de energia e geração de lixo eletrônico causado pela mineração do bitcoin, mas por motivos diferentes aos do Átila e isso está relacionado às premissas básicas que envolvem a construção dos argumentos.

A mineração possui estes problemas que ele descreve, mas se fosse a única forma possível de se conseguir um dinheiro descentralizado e peer-to-peer, com potencial de substituir o sistema atual, na minha opinião esse consumo seria justificável.

Primeiro porque o sistema atual também utiliza grandes quantidades de energia e também gera lixo, desperdício e outras externalidades negativas: impressão de notas, sistemas bancários, envelopes, caixas eletrônicos, sistemas de cartões, transporte de cédulas e moedas, etc.

Segundo porque o sistema fiduciário e bancário possuem outros problemas que atingem outras esferas sociais através da inflação, manipulação dos juros e do mercado, controle populacional, monopólio econômico, pobreza induzida, cartelização, etc.

Suas próprias externalidades. Gravíssimas.

Então, quando aponto para os problemas da mineração, é apenas porque já existem outros projetos descentralizados que conseguem entregar uma forma de dinheiro digital peer-to-peer seguro com maior eficiência – o que significa um menor consumo – e não por uma agenda construída de críticas que ignoram todos os problemas do sistema vigente.

Dito isso, vamos à teoria elaborada pelo influenciador, do “Paradoxo dos Carros Autônomos”.

O Paradoxo dos Carros Autônomos é baseado em falácias argumentativas

O vídeo começa em um tom explicativo, com dados e fatos sobre como os carros autônomos estão sendo projetados e quais os benefícios que eles podem trazer, principalmente relacionados à diminuição do trânsito e melhor aproveitamento do espaço utilizado por estacionamentos.

infográfico de carros autônomos guiados por inteligência artificial
Fonte: Reprodução do vídeo

Átila apresenta um modelo onde os carros podem ser dos próprios usuários, ou ainda onde eles são oferecidos por empresas privadas, como o Uber, e funcionam de forma compartilhada, sob demanda.

O paradoxo dos carros autônomos

No minuto 04’40”, no entanto, ele fala que muitas vezes a tecnologia cria externalidades ao problema que ela está tentando solucionar (uma externalidade é como um determinado sistema afeta outras pessoas que não fazem parte desse sistema), dizendo que os carros autônomos eliminam o problema do trânsito para as pessoas que o utilizam, mas podem piorar o trânsito para aqueles que não participam do modelo.

Ao invés de trazer argumentos lógicos sobre porque isso ocorre, ele interrompe o raciocínio e começa a apresentar exemplos de outras tecnologias com suas possíveis externalidades, e é aí onde a teoria “se enrola”.

Falácia da ladeira escorregadia

Em 05’50”, Átila Iamarino trás o exemplo da diminuição do consumo de papel, como um ganho proporcionado pela indústria de conteúdo digital. O que faz muito sentido.

Com a possibilidade de consumir artigos online, ou PDFs; e-books; audio-books; e podcasts, o consumo de papel diminui, o que diminui também os impactos negativos deste consumo na sociedade; como desmatamento e poluição.

Além de diminuir os custos para o consumidor na compra de livros, armazenamento, bibliotecas físicas, gasto energético para produção deste material, etc.

Mas no momento de apresentar a externalidade a isso, o influenciador usa o aumento das compras digitais e delivery, que aumentaram muito o consumo de papelão (derivado do papel).

Imagem do átila com o texto papelão na frente, retirado do vídeo.

A externalidade não possui nenhuma relação com o outro caso. Os únicos pontos em comum são o consumo do papel (ou derivado) e a plataforma digital, mas consumo de conteúdo digital e compras virtuais com entrega em casa não possuem nenhuma outra relação entre si.

Com isso ele utiliza de uma falácia conhecida como “Ladeira Escorregadia”, onde o argumentador faz parecer que o fato de permitirmos que aconteça A, fará com que aconteça Z, e por isso não podemos permitir A.

Ou no caso do exemplo, permitir que possamos consumir livros de forma digital (com e-books) ao invés de livros de papel, fará com que mais pessoas passem a fazer compras em lojas virtuais, aumentando o consumo de papelão e por isso o avanço de conteúdos digitais causa essa externalidade. O que é falso.

Algo parecido acontece quando ele fala sobre o BTC.

Mais falácias e o Bitcoin

É nesta sequência que o cientista trás o Bitcoin para a conversa (06’50”), afirmando:

“Isso quando uma solução tecnológica não acentua ou cria problemas, fazendo o contrário do que poderia resolver, como acontece quando se faz transações usando o bitcoin”.

citação em texto retirada do vídeo, com imagem de ASICs mineradoras de bitcoin.

Como irei demonstrar no restante do texto, os problemas que o bitcoin cria não são decorrentes de “quando se faz transações usando o bitcoin”, mas exatamente da falta de incentivos para que elas ocorram.

Ele continua:

“O bitcoin poderia ser o sistema que faz transações rápidas e com valores fracionados com um custo baixíssimo (…)”. – E aqui concordamos. Realmente poderia e exatamente por este motivo que eu acredito que existem outros projetos como a Nano (XNO) ou o Bitcoin Cash (BCH) que suprem melhor a demanda de um sistema de dinheiro descentralizado peer-to-peer.

O problema é que, na continuação, Átila compara o bitcoin com o Pix – já explicamos por aqui que são coisas completamente diferentes.

Consumo energético por transação de BTC

A explicação sobre o uso de energia para validar transações através da criação de blocos, nos minutos seguintes, é correta. Assim como as externalidades apontadas com os impactos gerados pelo alto consumo de energia (um bem escasso) e todo o lixo eletrônico com as ASICs.

Ele se confunde – e é natural, muita gente não sabe disso – sobre o fato de que cada transação na rede é o que causa estes gastos, o que não é verdade e constitui uma falácia causal, ou non causa pro causa.

O aumento do número de transações na rede do bitcoin não faria com que o consumo energético aumentasse.

O que aumenta o consumo na rede do bitcoin são os próprios incentivos no negócio de mineração, que é independente da realização ou não de transações na rede. E é por isso que eu sou tão crítico com a tecnologia.

Os mineradores continuam recebendo as recompensas de bloco de 6,25 BTC (inflação de cerca de 1,7%) que podem despejar no mercado ou aumentar seu negócio, independente das pessoas estarem usando a rede para fazer transações.

Se todos os endereços de bitcoin mantivessem suas moedas paradas, os mineradores continuariam minerando blocos vazios e mantendo o negócio funcionando.

Desde que as pessoas continuassem comprando o ativo nas exchanges, apenas por especulação financeira ou como reserva de valor.

Então o que causa o aumento ou diminuição do consumo energético, são os incentivos que estes mineradores possuem para arcar com os custos do negócio (pagar as contas de luz, internet, equipamentos, imóvel, etc).

Que está ligado apenas ao preço do BTC e NgU (Numbers go Up).

E minha principal crítica em relação ao Bitcoin Core, é que existem algumas evidências de que este modelo foi criado para aumentar a receita dos mineradores, ao invés de criar um sistema eletrônico peer-to-peer para realmente ser utilizado.

Com taxas caras, blocos limitados em tamanho, que limitam a capacidade de transações por segundo e o surgimento de soluções criativas criadas para driblar a blockchain do bitcoin, como é o caso da lightning network.

Com todos estes incentivos negativos para o uso da blockchain (que precisa da mineração), a narrativa passa a se centrar apenas em subida de preço, que mantém a atividade lucrativa, aumenta o consumo energético geral da rede e aumenta ainda mais o consumo energético por transação, apresentado por Átila Iamarino.

Caso as pessoas fossem realmente incentivadas a utilizar a blockchain do bitcoin e o número de transações na rede aumentassem, o BTC se tornaria mais eficiente, pois o consumo de energia só aumentaria com o aumento do preço, mas o gasto por transação diminuiria.

É por isso que concordo em partes com as críticas do vídeo, mas por motivos diferentes.

Para saber mais sobre o impacto ambiental do Bitcoin e a baixa eficiência da rede já sendo percebida por negócios, leia:

Mozilla Firefox rejeita bitcoin por impacto ambiental, mas pode aceitar outras criptomoedas

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