O criador do Bitcoin é um completo mistério atualmente, o que resultou em diversas teorias interessantes. Uma “revelação” recente indicou que Adam Back, fundador da Blockstream, seria o rosto por trás do código.

O renomado programador John McAfee disse recentemente que “é muito fácil descobrir quem é Satoshi Nakamoto“, e citou a “estilometria” (estudo da escrita de cada pessoa) para analisar os principais suspeitos.

Apesar de McAfee não revelar o nome que tinha em mente, ele deixou duas pistas. Primeiro que toda palavra que tem uma ortografia diferente em inglês britânico e e inglês americano, Satoshi escrevia do jeito britânico. O outro ponto é que “apenas 5% da população usa dois espaços após um ponto final”.

Cerca de uma semana depois, um vídeo intitulado “Desmascarando Satoshi” foi ao ar no YouTube e cita essas mesmas pistas para um suspeito específico, Dr. Adam Back.

“Desmascarando Satoshi”

O vídeo foi uma continuação de uma série de 3 vídeos, que já vinham sendo publicados há três meses. Neste artigo vamos fazer um resumo dos principais argumentos que apontam para Back de toda a série de vídeos.

Primeiro, pistas foram deixadas de que Satoshi tinha um background britânico, desde o uso do termo “White Paper” e a preferência pelo inglês britânico até mensagem no bloco gênesis – quando ele usou um jornal do Reino Unido.

Ele poderia estar despistando os curiosos pela sua verdadeira identidade ao utilizar um “corretor” de inglês americano para britânico, mas o duplo espaço depois dos pontos parece mesmo algo relacionado à memória muscular.

Já o próximo ponto precisa de um contexto: Satoshi usava de alguns meios para divulgar seu projeto, um deles era o email [email protected], mas o endereço eletrônico acabou sendo comprometido.

Mensagens do criador do Bitcoin ou de um hacker?

No site Satoshi Nakamoto Institute é possível ver uma coletânea de posts de Satoshi nos fóruns BitcoinTalk e P2P Foundation, perceba o lapso temporal entre a última e a penúltima publicação.

Após Nakamoto sumir por anos, ele parece ter voltado em 7 de março de 2014 apenas para dizer que não era Dorian, o que levou as pessoas a cogitarem que sua conta teria sido comprometida.

Inclusive Theymos, moderador do BitcoinTalk e do r/Bitcoin, os maiores fóruns de discussão sobre a criptomoeda, escreveu que recebeu um email estranho vindo de [email protected] Então as pessoas deveriam apenas confiar em emails assinados por Satoshi.

“O email não foi falsificado de forma alguma. Parece muito provável que a conta de email de Satoshi em particular ou a gmx.com em geral tenha sido comprometida, e a conta de email agora esteja sob o controle de outra pessoa. Talvez [email protected] tenha expirado e depois alguém o tenha registrado.”

O conteúdo do email supostamente parecia uma brincadeira de um hacker qualquer, e dizia “Michael, me envie algumas moedas antes que eu te mande um assassino de aluguel.”

E desta forma, a conta de Satoshi na P2P Foundation também estaria comprometida, tendo a senha redefinida por email. E por isso Theymos também diz que não poderíamos confiar que o comentário “Eu não sou Dorian Nakamoto” tenha vindo de Satoshi.

No entanto, após o tópico de Theymos, ainda no mesmo dia, 8 de setembro de 2014, outro comentário foi publicado na conta de Satoshi:

“Caro Satoshi. Suas informações, senhas e endereços IP estão sendo vendidos na darknet. Aparentemente, você não configurou o Tor corretamente e seu IP vazou quando você usou sua conta de email em 2010. Você não está seguro. Você precisa sair de onde você está o mais rápido possível antes que essas pessoas o prejudiquem. Obrigado por inventar o Bitcoin.”

Ao perceber essa nova publicação, Theymos teve até que editar seu post para explicar que ele inicialmente se referia ao comentário sobre Dorian, feito meses antes.

Essa mensagem se referia a um hacker que havia supostamente comprometido a conta de Satoshi por dinheiro, resultando em um pastebin demandando bitcoins pelas informações de Satoshi.

Como o gmx.com libera o endereço de email após um certo período, depois de Satoshi sumir alguém pôde registrar sua conta novamente e tentar aplicar esse golpe.

Essa mensagem e o pastebin são resultados disso, e o hacker falhou em juntar os 25 BTC demandados, pois as pessoas logo perceberam que o atacante na verdade não tinha dados sobre Satoshi.

Isso porque o atacante mostrou duas fotos para tentar convencer os incautos, e na primeira delas era uma compra online que continha o endereço do comprador e o email colocado era o de Satoshi. Porém, qualquer um poderia colocar um email que não o seu nesse espaço.

A segunda foto, no entanto, tem uma informação mais relevante, ela acaba mostrando a data em que a senha do email de Satoshi foi redefinida: 8 de setembro de 2014.

O que significa que quem postou a mensagem a qual Theymos se referiu anteriormente não foi esse hacker, mas outra pessoa. Sem indícios de comprometimento da conta anterior a esse fato, possivelmente tenha sido Satoshi.

O que parece, para o autor do vídeo, é que Satoshi não queria que Dorian continuasse sendo assediado pela mídia, já que claramente ele não estava envolvido no projeto.

A relevância da autoria dessa mensagem, é entender que Satoshi poderia muito bem ainda estar envolvido no Bitcoin de maneira ainda mais “sorrateira”. O que nos leva a outro ponto interessante.

O debate de escalabilidade do Bitcoin, Gavin Andresen e Adam Back

Ainda outra mensagem foi divulgada como sendo de autoria de Satoshi Nakamoto, e se tratava de um email contendo os pensamentos do criador do Bitcoin sobre o debate de como o projeto deveria escalar.

Veremos essa mensagem no próximo tópico, antes disso precisamos do contexto do debate de escalabilidade do Bitcoin e o “golpe” de Gavin Andresen.

Enquanto alguns viam o problema como algo simples, o limite de 1MB (imposto por Satoshi, inicialmente como algo temporário para evitar spam na rede) deveria aumentar. No entanto, outros viam problemas em possibilitar o crescimento do blockchain em um ritmo mais acelerado, o que poderia em tese centralizar a rede.

Então, a proposta de aumento dos blocos do Bitcoin não foi recebida com unanimidade, portanto a atualização, se realizada, bifurcaria a rede (que foi o que acabou acontecendo depois com o Bitcoin Cash).

Mas no início, a proposta quase foi concretizada na principal criptomoeda, com a atualização chamada de BitcoinXT (BXT). Essa polêmica atualização causou praticamente uma guerra civil dentro da comunidade do Bitcoin.

Proposta por Gavin Andresen e Mike Hearn, o BIP 101 aumentava o limite do bloco para 8MB e dobrava a cada 2 anos, se os mineradores alcançassem 75% de consenso ao atualizar seus softwares.

A maioria das pessoas concordava que o tamanho dos blocos precisaria ser aumentado em algum momento, mas o difícil era todos concordarem com uma proposta específica.

Alguns qualificados desenvolvedores, em especial os contratados pela Blockstream, foram vigorosamente contra a proposta. A Blockstream é uma empresa com fins lucrativos focada em desenvolver para sidechains (blockchains auxiliares) para o Bitcoin e foi fundada por Adam Back em 2014.

Esses desenvolvedores estavam focados em escalar o Bitcoin através de sidechains, onde as taxas seriam embolsadas pela companhia, em vez dos mineradores. No entanto, se o BitcoinXT fosse bem sucedido, não haveria interesse pelas sidechains, e os investidores não ficariam felizes com a Blockstream. Veja mais sobre o financiamento da Blockstream e seu envolvimento com a CIA.

Por outro lado, se o hardfork BXT fosse bem sucedido, as pessoas iriam agora seguir o código que era mantido unicamente por Mike Hearn e Gavin Andresen. O CEO da Blockstream, Dr Adam Back, comentou sobre essa mudança de governança do Bitcoin quando perguntado em uma entrevista, essa foi a resposta:

“Gavin ingenuamente acha que vai dar um golpe, forçar a implementação e convidar as pessoas a participarem deste golpe. No entanto, Mike Hearn deixa claro no website do BXT que ele é o tomador final de decisões (ou ditador benevolente, como ele coloca). Então é claramente pretendido alterar o processo de governança, e Mike não está sem preconceitos e controvérsias.

Parece altamente improvável do meu ponto de vista que qualquer pessoa do Core vai participar do BitcoinXT. Então não é claro se o BitcoinXT terá os recursos e expertise para manter o projeto seguro e protegido.”

A mensagem final de Satoshi

Em meio a todo o debate sobre como escalar o Bitcoin, discussões sobre governança e descentralização, um problema surgiu. Uma espécie de “votação” estava acontecendo e os participantes da rede precisavam se informar para tomar uma decisão consciente.

A votação era que versão do Bitcoin as pessoas deveriam rodar para se manter na rede que atingiria o consenso, com a melhor forma de escalar o blockchain para que mais pessoas pudessem utilizar a tecnologia.

E para isso, dois sites eram escolhas óbvias, os fóruns mais acessados sobre Bitcoin eram (e ainda são): o r/Bitcoin e o BitcoinTalk. O problema era, os dois fóruns são moderados por Theymos, que censurava os tópicos relacionados à BXT e outros hardforks. Suspeitas diziam que ele era ligado à Blockstream.

Já explicamos um pouco sobre a polêmica moderação de Theymos nos artigos “Vídeo que mostra vulnerabilidade do Bitcoin é censurado do Reddit” e “Roger Ver acusa Theymos de tentar deletar história do Bitcoin“.

E como os participantes da rede iriam tomar uma decisão consciente se eles não podiam debater o assunto? O BitcoinXT perdeu a grande força que tinha entre os mineradores por causa dos usuários e de diversos ataques Ddos feitos à exaustão.

Theymos admitiu manipular a opinião pública com sua moderação tendenciosa nos únicos fóruns da internet que tinham tráfego relevante. O interessante é que sua opinião mudou fortemente de 2013 para cá, quando ele afirmou:

“As discussões livres e abertas desse fórum ajudam os indivíduos da comunidade de Bitcoin alcançarem a verdade. Todos tem um conhecimento que pode contribuir com as discussões e todos que leem recebem esse conhecimento e se aproximam da verdade. Isso é muito mais efetivo que ter a verdade ditada por um punhado de moderadores ou votadas em um eleitorado.

Moderador do Bitcoin Talk e r/Bitcoin em 2013

Já depois das censuras e debates, anos depois:

“O jeito que opero o r/Bitcoin é compatível com o direito de propriedade privada. r/Bitcoin é um site privado e centralizado. Eu sou livre para mantê-lo do jeito que eu achar melhor. Não estou sob nenhuma obrigação ética de permitir a liberdade de expressão só porque acredito em propriedade privada. Isso não me dá controle inerente do Bitcoin, exceto a capacidade de influenciar indivíduos livres.”

Moderador do Bitcoin Talk e r/Bitcoin em 2016

Então o que aconteceu desde 2013 que fez Theymos mudar de ideia? Bom, a fundação da Blockstream se deu em 2014. A relação entre o moderador e a empresa é explicada aqui.

Mas, talvez, Theymos saiba qual é a real visão de Satoshi, e estava preocupado que o Bitcoin pudesse tomar outro rumo com o XT, e por isso quis influenciar as discussões nos principais fóruns.

Em 15 de agosto de 2015, Mike Hearn enviou para a lista de emails a primeira versão do nó de BitcoinXT, dizendo:

“Fico triste que chegou a esse ponto, mas não há outro jeito. O projeto Bitcoin Core se afastou tanto dos princípios que eu e muitos outros acreditamos, que um hardfork é a única maneira de consertar isso.”

Apenas 40 minutos depois, uma mensagem do vistomail de Satoshi Nakamoto respondia:

“Eu venho acompanhando o debate do tamanho dos blocos pela lista de emails, eu esperava que o debate fosse resolvido e que uma proposta de fork atingisse um amplo consenso. No entanto, com o lançamento formal do Bitcoin XT 0.11A, parece improvável que isso aconteça, e por isso sou forçado a compartilhar minhas preocupações com esse muito perigoso fork.

Os desenvolvedores desse pretendente à Bitcoin alegam que estão seguindo minha visão original, mas nada poderia ser mais longe da verdade. Quando eu criei o Bitcoin, minha visão era de que as regras de consenso seriam praticamente impossíveis de se alterar sem aceitação unânime.

Bitcoin foi desenhado para ser protegido da influência de líderes carismáticos, mesmo que seus nomes sejam Barack Obama, Gavin Andresen ou Satoshi Nakamoto. Praticamente todo mundo deve concordar com uma mudança, e eles tem que fazer isso sem serem pressionados ou forçados para isso.

Ao empurrar um fork dessa maneira, os desenvolvedores estão violando a visão original que clamam honrar. […]”

Apesar da mensagem ser questionada como um real retorno de Satoshi, principalmente pelos apoiadores do aumento dos blocos, não há evidências de que esse vistomail foi comprometido em nenhum momento.

Outro fato interessante, é que Gavin Andresen teve seu acesso ao github do Bitcoin removido pelos Core Devs assim que disse publicamente que acreditava que Craig Wright era Satoshi Nakamoto.

Sem antes avaliar se isso era verdade ou não, os desenvolvedores “chutaram” Gavin do projeto, como se eles já soubessem de algo que ninguém mais sabe. E por esse motivo, as intenções de Gavin eram questionáveis. Wright é um defensor dos grandes blocos, e eventuamente criou seu fork do Bitcoin Cash, o Bitcoin Satoshi Vision.

Os desenvolvedores parecem estar seguindo o verdadeiro Satoshi Nakamoto, que ainda guia o projeto por trás dos panos. E sua identidade pode estar sendo protegida por acordos de não-divulgação.

Satoshi ainda está por trás do projeto Bitcoin

Ao olhar para o White Paper do Bitcoin, percebemos que as duas ideias que mais influenciaram o projeto estão nas referências como B-money de Wei Dai e Hashcash de Adam Back.

Adam Back, CEO da Blockstream, está presente no primeiro email divulgado de Satoshi Nakamoto, onde ele pedia para Wei Dai esclarecer a data do paper do B-money.

Nakamoto afirma que havia falado com Dr Back anteriormente, e ele quem tinha notado as semelhanças entre o Bitcoin e o B-money, e o recomendou que olhasse esse projeto. Mas a conversa entre Nakamoto e Adam Back nunca foi divulgada.

Há conversas entre Satoshi e basicamente todo mundo, menos com Adam Back. Quando perguntado, Back afirmou que preza pela privacidade de Satoshi e nunca irá divulgar as mensagens trocadas com ele.

Outro ponto intrigante é que pouquíssimas pessoas conheciam o paper de B-money, e um dos únicos a comentarem sobre ele foi o próprio Adam Back, quando disse que ele poderia ser uma solução para o Hashcash funcionar transferindo valores de forma pseudoanônima.

Dr. Adam Back certamente tinha o background necessário para juntar todas essas ideias em uma criptomoeda funcional, ele possui um PhD em sistemas distribuídos. Bitcoin foi escrito em C++, Adam sabe escrever códigos proficientemente em C++.

Além disso, ele parece ter parado com seus projetos acadêmicos por anos, coincidentemente, quando o Bitcoin poderia estar sendo desenvolvido.

Segundo Back, Satoshi enviou o software antes de ser lançado, mas ele não deu muita atenção. Nós inclusive já falamos sobre isso aqui no artigo: “Pessoas que perderam a oportunidade de ficarem ricas com bitcoin“.

É muito estranho que um dos principais criptógrafos interessados em uma moeda como o Bitcoin não tenha dado nenhuma atenção a esse projeto por tantos anos.

Além destas, existem outras coincidências que você pode assistir no vídeo completo, mas já dá para entender como Adam Back poderia realmente ser o rosto por trás de Satoshi. No entanto ele já negou essa suspeita.

Adam Back: Eu não sou Satoshi

“Alguns fatores e timing podem parecer suspeitos em retrospectiva; coincidência e fatos são bagunçados.”

Algumas outras personalidades do mundo cripto, que inclusive não gostam de Back, como CobraBitcoin, se mostraram céticas quanto a essa teoria:

Adam Back tem o carisma textual de uma meia molhada. Seu estilo de escrita é enigmático, difícil de seguir e carece de brilho. Em comparação, a escrita de Satoshi era clara, carismática e ele possuía excelentes habilidades de comunicação. De jeito nenhum Adam é Satoshi, ele é muito diferente.

Mas qual a sua opinião, a teoria faz sentido? O CEO da Blockstream poderia ser Satoshi Nakamoto e o Bitcoin (BTC) é a verdadeira moeda que segue a visão de seu criador? Deixe seu comentário abaixo.