Antes de vislumbrarmos o que a moeda Libra poderá fazer com o dinheiro como conhecemos hoje, temos que nos perguntar o que exatamente é o dinheiro?

Introdução a história do dinheiro

O dinheiro é um documento da história da humanidade, através dele, foi possível documentar a evolução não só econômica, mas também política, cultural e tecnológica das sociedades.

A história da moeda confunde-se com a história do mundo, pois é uma história contínua cujos meandros são ocultados pela atual prevalência de um modelo atual de dinheiro e de economia.

Dada a centralidade da moeda metálica na história do dinheiro, sem porém esquecermos a existência de outras formas de dinheiro, nomeadamente o papel-moeda e, mas especificamente, as notas de bancos centrais.

Contudo, as manifestações do dinheiro não se esgotam nem nestas formas materiais, nem na própria materialidade dos objetos, pois há formas de dinheiro que não chegam sequer a ter existência física, embora possam ser convertidas em moeda física, são os casos das criptomoedas. Sobre essas vamos falar a frente.

Escambo

A moeda era vista essencialmente como um mediador e facilitador de trocas, mas antes desse tempo, vivíamos no escambo.

Onde as pessoas trocavam aquilo que produziam, a prática consistia em trocar algo por outra coisa na qual você via valor ou utilidade, sem o envolvimento de moeda ou equivalência de valor, apenas um troca.

Mas aí nos deparamos com um problema, veja o exemplo abaixo:

Ex. O seu João tem um (1) litro de leite e quer um sapato; já o seu Carlos tem sapatos, mas deseja obter pães; e Clarice que é padeira deseja leite para fazer manteiga. Como resolver essa situação?

Criando um meio de troca amplamente aceito, que seja uma unidade de conta e preserve seu valor ao longo do tempo, a moeda.

A história da moeda

Ao longo de toda história da humanidade, foram utilizados os mais diversos ‘artigos’ com a finalidade de moeda, como o chocolate entre os astecas, o gado, o bacalhau dos noruegueses, assim como sal na antiga Abissínia e é daí que vem palavra salário.

Já a criação de uma moeda metálica com um valor padronizado pelo Estado coube aos gregos do século VII a.C.

Não se sabe ao certo quando, onde foi cunhada a primeira moeda mas relatos apontam para a Turquia, outros apontam para China, mas nosso papel é apenas mostrar a evolução do dinheiro como conhecemos não quem o criou.

A cultura da moeda é essencialmente grega, mas a moeda foi sendo imposta e foi-se impondo pela sua utilidade a múltiplas sociedades e governos.

A dracma foi cunhada em Atenas, a cidade-estado foi uma das primeiras a produzir moedas metálicas. A invenção facilitou tanto o comércio que logo se espalhou por todo o Mediterrâneo. Usava-se uma mistura de ouro com outros metais para cunhagem das moedas metálicas.

As moedas romanas eram puras em prata, mas com a necessidade de arrecadar mais impostos começaram a misturar com outros metais. E chegou o tempo que uma moeda tinha apenas 5% de prata. O resultado foi uma inflação que enfraqueceu o império.

No ano de 1776, o Congresso americano precisava de um exército para lutar pela independência do país, mas não possuía dinheiro para financiá-lo. A solução foi emitir cartas de crédito, apelidadas de continentals, e aplicar duras penas a quem se recusasse a aceitá-las, ali estava um dos precursores do papel-moeda.

A França foi uma das pioneiras no uso de papel-moeda, em 1790, a Revolução Francesa emitiu estes papéis-moedas. Mas o medo de que a monarquia voltasse e a grande quantidade de notas levou-as ao fracasso. Com o papel-moeda a todo o vapor, os governos tinham que ter um depósito em ouro para cada nota criada.

Já em 1971, com o fim do padrão ouro, não era mais preciso ter uma reserva de ouro para imprimir papel e chamá-lo de cédula, com isso passamos a depender da confiança em governos. Não obstante, só usamos ‘nosso dinheiro’ quando outros permitem, temos que pedir permissão com antecedência para sacar ou fazer uma transferência com o nosso dinheiro, para isso temos que pagar taxas absurdamente caras.

Só para salientar, quando você deposita dinheiro na sua conta (o que na verdade seria um empréstimo ao banco), ficam só dígitos na tela, pois os bancos te pagam rendimentos de poupança mas emprestam seu dinheiro com juros exorbitantes para outros clientes“.

O grande poder de troca e o baixo custo de produção atraiu falsificadores de papel-moeda desde a sua invenção. Um dos casos mais famosos de fraude foram as cédulas inglesas que os alemães imprimiram durante a Segunda Guerra para desvalorizar a moeda do adversário.

O cartão de crédito foi inventado no início do século XX por companhias de combustível, para que os clientes pudessem comprar seus produtos em lojas distantes da sua casa e em lugares onde era difícil conseguir dinheiro físico.

Bitcoin

Seria injusto falar da Libra sem falar do Bitcoin, pois a principal criptomoeda do mundo foi o estopim para a stablecoin (moeda estável) do Facebook.

A ideia inicial do Bitcoin nasceu em um fórum de criptografia em 31 de outubro de 2008, onde uma pessoa ou grupo de pessoas com o pseudônimo de Satoshi Nakamoto, escreveu um artigo (white paper) intitulado “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System“, onde descrevia um forma de dinheiro digital sem fronteiras, de ponto-a-ponto (P2p) sem intermediários, transparente, deflacionário em uma rede distribuída, Blockchain.

Mas vale ressaltar que o Bitcoin não foi a primeira tentativa de um dinheiro digital, houveram outras tentativas como o DigiCash de David Chaum, mas falhou por não conseguir evitar o problema de gastos duplos (onde o usuário envia as moedas mas continuava uma cópia da mesma moeda em sua carteira, parecido quando enviamos um e-mail e podemos reenviar várias e várias vezes esse mesmo e-mail e sempre teremos uma cópia).

Resolvido isso, a primeira transação de bitcoins ocorreu em 03/01/2009 às 18h15:05 que tem seu registro inalterado até hoje na Blockchain (rede de transações do Bitcoin). Até esse momento (2010) o Bitcoin não tinha preço no mercado, quando em uma transação referente a compra de duas pizzas pelo preço de 10.000 bitcoins (em valores atuais R$ 308.181.640,00 milhões de reais), se teve uma base de preço da moeda e de lá para cá só ganhou adeptos.

Introdução a Libra, do Facebook?

A Libra, usando como base a expertise do Bitcoin, a moeda lidera pelo Facebook (por meio de sua subsidiária Calibra) e mais 20 membros fundadores que fazem parte da Associação Libra, uma organização sem fins lucrativos que governará o token Libra.

Assim como o Facebook/Calibra, os outros membros terão as mesmas responsabilidades e deveres, assim como o mesmo peso nos votos, afastando assim o rótulo do Facebook de dono da moeda Libra.

Libra será parecida com um ETF (Exchange Traded Fund), um fundo negociado em bolsa, assim como o ETF a Libra será um token que representará uma cesta de ativos, tais como moedas fiats e títulos públicos de governos estáveis, essa cesta será administrada pela Reserva Libra que terá a missão de preservar o valor da moeda Libra.

E para finalizar a introdução a Libra, como falado acima há 21 membros que gerem a moeda no momento, mas poderá chegar a cem (100) membros, mas ainda sim com 21 membros a Libra consegue ser menos centralizada que muitas criptomoedas que se dizem descentralizadas, mas são compostas por 5 ou 10 desenvolvedores. Confira mais detalhes sobre a Libra aqui.

Libra – A evolução do dinheiro

No mundo existem cerca de 1,7 bilhão de pessoas desbancarizadas, por diversos fatores, entre eles, pessoas que moram em lugares extremamente isolados da sociedade e também por causa do desinteresse econômico dos bancos.

Mas os que têm acesso a serviços bancários básicos esbarram em altas taxas e lentidão dos sistemas atuais, com serviços de remessas que podem cobrar cerca de 10% só de taxa e podem levar até 3 dias úteis para realizar uma simples transferência. Além das taxas de conversão para moeda local.

Há serviços atuais de bancos que fazem transferências internacionais em cerca de 2 horas, como o Santander, diminuiu o tempo mas não as taxas. Na última reunião da Comissão Especial da Regulação das Criptomoedas no Brasil, um representante do BACEN (Banco Central Do Brasil), falou que a autarquia vem fazendo teste com o ‘real digital’ uma criptomoeda pública, por meio da tecnologia stablecoin.

Legal, mas isso não introduz os mais pobres na economia, tão pouco ajudará na inclusão financeira assim como é proposto pela Libra, apenas atenua quem está inserido.

A proposta da Libra pode mudar o sistema financeiro como conhecemos, com um smartphone de R$ 100,00 reais e um plano pré-pago de R$ 10,00 reais de internet, qualquer pessoa no mundo poderá baixar uma carteira Libra e enviar dinheiro para qualquer parte do mundo, instantaneamente, com custo irrisório e sem intermediários, 24 horas por dia, finais de semana, feriados, sem precisar pedir permissões.

Entre os membros fundadores há participantes como a Vodafone que têm filiais no continente africano além da Iliad que poderá fornecer crédito às pessoas por meio de Libras; estamos conectando o mundo com a Libra.

Ressaltando que os parceiros da Associação Libra já corroboram com a inclusão financeira, como a Mercy Corps que ajuda pessoas em situações difíceis de sobrevivência, também temos a Women’s World Banking uma organização sem fins lucrativos que ajuda a financiar principalmente as mulheres em todo mundo, esses além de outros atores do ecossistema Libra que serão beneficiados com uma moeda simples, global, que capacitará bilhões de pessoas em todo o mundo.

Texto escrito por Caio Nunes para o Cointimes.