O Deputado Federal, Kim Kataguiri, fez uma rodada de perguntas e respostas em seu Twitter e Instagram e, em uma delas, respondeu sobre a adoção do Bitcoin (BTC) por grandes países. Aproveitando para tecer críticas à moedas de curso forçado por bancos centrais.

Pergunta e Resposta – Kim Kataguiri

No dia 17 de novembro, o ex-colunista da Folha de São Paulo, fundador do MBL (Movimento Brasil Livre) e atual Deputado Federal, Kim Kataguiri, abriu um tweet para perguntas de seus seguidores que seriam respondidas em vídeo.

Pouco mais de um mês depois, Kim respondeu algumas dessas perguntas, entre elas:

Reprodução tweet de pergunta

“O que acha de países grandes usarem bitcoin como moeda principal? seria uma loucura?”

A resposta de Kim Kataguiri foi:

“Eu acho arriscado”.

E completou – “Eu sou muito cético em relação à moeda nacional, moeda de curso forçado”.

“Acho que basicamente os bancos centrais perderam a noção, o banco central dos EUA, o banco central do Brasil perderam o lastro da moeda e isso gera perda de confiança e gera perda do poder de compra, mas não sei se adotar o bitcoin é a melhor saída, a melhor alternativa”.

Kim Kataguiri tem razão?

Bitcoin é arriscado? Os Bancos Centrais estão perdendo a confiança por conta de suas políticas monetárias? Moedas de curso forçado são uma exclusividade das moedas fiduciárias? Kim Kataguiri tem razão em suas afirmações?

Bancos Centrais e suas políticas monetárias

Kim afirmou que os “Bancos Centrais perderam a noção” e por isso suas moedas perderam credibilidade e poder de compra.

Conforme explicamos em uma série de artigos, entre eles o “Descubra de quanto é a inflação real da moeda brasileira; e como isso nos afeta”, a perda do poder de compra é um dos efeitos decorrentes de políticas monetárias inflacionárias – que buscam ativamente o aumento do fornecimento de dinheiro em circulação na economia.

A perda de credibilidade acaba sendo um efeito da perda do poder de compra.

E a perda do poder de compra acontece, entre outros motivos, por leis econômicas de mercado (oferta e demanda):

  1. Ao aumentar a oferta de dinheiro circulante, este passa a valer menos;
  2. Ao valer menos, seu poder de compra diminui;
  3. O que pode gerar perda de credibilidade;
  4. E possivelmente potencializar a perda de confiança.

Mas isso não acontece porque os “Bancos Centrais perderam a noção”.

Essas são decisões conscientes tomadas com finalidades políticas pelos administradores das autarquias (o BCB, no Brasil).

A inflação é definida através de metas claras e objetivas pela presidência do Banco Central, que são defendidas (e as vezes até solicitadas) por políticos.

Não é apenas um episódio de insanidade, como o deputado federal faz parecer na sua resposta, mas algo intrínseco ao perfil dos governos citados (Estado Unidos e Brasil), apoiado pela classe política e endossado pelos eleitores que escolheram esses representantes.

De forma resumida, a “noção” nunca existiu para que ela pudesse ter sido perdida.

Moeda de curso forçado é uma exclusividade de moedas fiduciárias?

Moedas fiduciárias são moedas lastreadas na confiança dos políticos da ocasião.

Seu valor e seu uso são definidos sob decreto, por leis que garantem seu curso (forçado), sua “adoção” no mercado (entre aspas porque adoção normalmente remete à algo que é voluntário, o que não é o caso) e tentativas constantes de manipular seu valor através de ferramentas econômicas como taxas de juros, emissão de títulos públicos, etc.

Uma moeda fiduciária normalmente possui gestão arbitrária e centralizada.

Mas o “curso forçado” é apenas uma característica das moedas fiduciárias e não sua definição final.

Uma moeda ser de curso forçado, significa que todos os residentes de um determinado país são obrigados por lei a aceitar aquela moeda como dinheiro para suas trocas.

Qualquer pessoa que se recusar a receber aquela moeda como pagamento por um produto, serviço ou trabalho pode ser punida.

Recentemente, o presidente Nayib Bukele decretou curso forçado para o Bitcoin em El Salvador.

O problema do curso forçado não está exclusivamente em uma moeda X ou Y, mas na decisão de governos de impedirem o livre mercado e a livre decisão de trocas de seus cidadãos ao estipular que uma determinada moeda – seja ela qual for – possua valor.

Quem recebe uma moeda como pagamento precisa enxergar valor naquele ativo por si próprio. Do contrário, não importa que ela seja uma das reservas de valor mais escassas, descentralizadas, seguras, soberanas e de tecnologia inovadora, como o Bitcoin.

Seu valor de curso forçado é artificial e irreal para aquele que não o reconhece, mas é obrigado a aceitar e pode ser muito prejudicial nesse caso.

E nesse ponto, Kim Kataguiri pode ter razão sobre “Bitcoin ser arriscado, se adotado por grandes países como moeda principal”.

Bitcoin arriscado?

Quando dizemos que um grande país está adotando o Bitcoin, podemos entender que o país está decretando curso forçado para o BTC, assim como aconteceu em El Salvador, um pequeno país da América Central.

E nessa ótica, os riscos são imensos.

Pessoas que não tem interesse na tecnologia, não entendem o básico de seu funcionamento e, talvez, nem gostem da solução que o bitcoin propõe passam a ser obrigadas a usá-lo.

Ao não possuir interesse e conhecimento, ao mesmo tempo que possuem obrigação, é natural que elas recorram às alternativas mais “fáceis”, como, por exemplo, carteiras custodiantes fornecidas pelo próprio governo.

Não são poucos os casos problemáticos – reportados por usuários – relacionados com o uso da Chivo, carteira de Lightning Network controlada pelo governo de El Salvador, centralizada, custodial e muito vulnerável.

Também não são poucos os relatos de usuários que perderam dinheiro com a volatilidade do ativo, com más decisões financeiras de liquidação, armazenamento ou negociação.

Bitcoin é uma tecnologia complexa e é um ativo ainda altamente volátil e especulativo.

Mais volátil do que as moedas fiduciárias por – entre outros motivos – se tratar de um dinheiro global, sem fronteiras, mais difícil de ser manipulado por instituições financeiras centrais através de taxas de juros e títulos públicos.

O risco do Bitcoin existe principalmente ao ser usado por quem não gostaria de usá-lo.

Além da tecnologia também possuir algumas limitações notáveis como a falta de escalabilidade que gera uma nova necessidade de soluções experimentais de segunda camada, evitando transações onchain (Lightning Network).

Estas limitações foram reconhecidas inclusive por Michael Saylor, bilionário e grande entusiasta do Bitcoin, que acredita que ele seja um ótimo ativo digital, mas ruim como dinheiro do dia-a-dia.

Mas quando falamos sobre ser arriscado (Kim Kataguiri), o mesmo risco existe para qualquer moeda de curso forçado e, se formos comparar com as moedas fiduciárias, as vantagens do Bitcoin são incalculáveis em relação a elas. 

O risco não está necessariamente relacionado ao Bitcoin, mas na obrigatoriedade de aceitação de valor, em um símbolo de representação de valor (moeda, por definição).

Até mesmo moedas digitais mais eficientes como dinheiro – como a Nano (XNO) – poderiam sofrer o mesmo risco em uma “adoção” por coerção.
A adoção precisa ocorrer de forma voluntária, baseada nas leis do livre mercado, de acordo com vontade e interesse de cada pessoa ou instituição que consiga enxergar valor naquele dinheiro.

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